O Brasil se prepara para a mais competitiva eleição geral em 15 anos
O troca-troca de partidos, as novas filiações e a identificação das lideranças que atraem novos filiados indicam fragmentação e competição em 2010.
Sérgio Abranches
Chegando perto da data limite estabelecida pela legislação eleitoral para troca de legenda ou filiação original, para garantir a elegibilidade em 2010, está havendo verdadeiro corre-corre. Já dá para perceber quem está ganhando e quem está perdendo. Mas o mais importante é ver que o movimento dos políticos não está concentrado em um ou outro partido, mas mais aberto. Isso é sinal de eleição fragmentada e não polarizada.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles anninciou, sua filiação ao PMDB. Mas o PMDB está saindo em desvantagem do troca-troca de última hora. Perdeu mais que ganhou e o único nome realmente de peso que atraiu foi o de Meirelles.
O chanceler Celso Amorim, um dos autores da desastrada operação de refúgio de Manuel Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, anunciou sua filiação ao PT.
Mas o PT, também sai em desvantagem do troca-troca. Perdeu lideranças e nomes de grande representatividade de sua galeria de políticos mais comprometidos com a ética, como Marina Silva, agora no PV, e Flávio Arns, que retorna ao PSDB. Ambos saíram fortemente prejudicados da operação de blindagem ao senador José Sarney. Mas, sem dúvida, o maior ônus dessa operação de proteção ao clã de Sarney, diretamente conduzida pelo presidente Lula, recai sobre o PT. Afinal, o PMDB tem vários grupos regionais em seu condomínio com o mesmo padrão comportamento dos Sarney. Como dizia Márcio Moreira Alves, é um partido com um padrão moral bastante homogêneo. As exceções não conseguem alterar a média, a moda ou a mediana do partido nesse plano.
Lula joga tudo para ter o PMDB na coligação de Dilma Roussef. Vai cometer o erro que José Serra cometeu em 2002: confiar na improvável lealdade eleitoral do partido. Várias lideranças do partido já estão fechadas com José Serra (PSDB-SP), por exemplo.
As filiações mais notáveis fora obtidas pelo PV.Notáveis porque já mostram a marca da liderança da senadora Marina Silva no partido. É o “fator Marina” em operação. As adesões da última quarta-feira, 29.09, não foram ao PV, mas à candidatura de Marina Silva à presidência. Assinaram a ficha do partido para ficar ao lado de Marina, figuras expressivas como, entre várias outras, o empresário Guilherme Leal, co-presidente do conselho de administração da Natura; Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos; o diretor executivo da Klabin e presidente da SOS Mata Atlântica, Roberto Klabin; o presidente do maior moinho de papel artístico artesanal da América Latina, o Moinho Brasil; Fernando Garnero, da Brasilinvest.
Guilherme Leal tem sido falado para vice-presidente na chapa de Marina Silva, operando como uma espécie de aval empresarial de sua candidatura. Talvez ela precise mais de suporte político-eleitoral, para ampliar sua penetração em determinadas áreas do país e fazer alianças que lhe dêem mais tempo de televisão, do que se aval empresarial.
Afinal, a presença de Marina Silva e desses aliados peso-pesados do setor empresarial, já representam uma mudança significativa na conformação programática do PV.
Como diz o politólogo inglês Anthony Giddens em seu novo livro, “The Politics of Climate Change”, o verde não é mais uma outra tonalidade para o vermelho. É fato que a maioria dos partidos verdes saíram do cinturão de “partidos vermelhos”, comunistas ou socialistas.
O caso mais conspícuo é o do Partido Verde Alemão, criado por ex-comunistas e socialistas desiludidos com o comunismo e insatisfeitos com as políticas conservadoras dos social-democratas. Mas, hoje, se diferenciaram significativamente das plataformas dos partidos socialistas e social-democratas, adotando uma agenda mais ampla e mais sistêmica da economia e da sociedade.
O recorte ideológico e programático dos verdes é diferente. Tem como eixo central dois desafios globais e interdependentes que marcam a trajetória futura do século XXI: o da mudança climática e o da erradicação da miséria. Os verdes não são mais anti-capitalistas, embora sejam fortemente contra o consumismo. Querem novos padrões de produção e consumo, de baixo carbono, que são compatíveis com o modo de produção capitalista, digamos domesticado pela regulação. A idéia é mudar o capitalismo, não substituí-lo por superados modelos socialistas. Pode acabar dando na transição para outro modo de produção, talvez Marx dissesse isso, mas essa não é a teleologia dos novos verdes.
O presidente da FIESP, que é o baluarte do patriciado industrial de São Paulo, embora já tenha sido mais poderosa no passado, Paulo Skaf, filiou-se ao PSB. Ele não tem um traço sequer de socialismo, nem Ciro Gomes, que deve ser o candidato à Presidência, pelo partido. O partido é meio saco de gatos, como a maioria dos partidos brasileiros, mas está ganhando musculatura e tem o segundo colocado nas pesquisas presidenciais, no momento.
Esse troca-troca de legendas e essas novas filiações, todas de última hora, apontam para uma eleição muito competitiva e duramente disputada. Será um teste de stress para todos os candidatos. Pode ser a mais competitiva eleição presidencial dos últimos 15 anos. As eleições para a Câmara e o Senado devem ter a maior taxa de renovação das últimas quatro eleições. As eleições estaduais também devem ser muito competitivas. A democracia se nutre da incerteza, assim como das grandes surpresas eleitorais. Só com bola de cristal seria possível dizer se essas eleições surpreenderão na reta final. Mas são as que têm mais chance de surpresas em muito tempo.
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