Análise
28 setembro, 2009

PMDB não se unirá em torno de candidatura alguma. Lula paga preço alto demais.

Os principais caciques do PMDB andam se desentendendo sobre a posição do partido nas presidenciais de 2010. O partido pode estar rumando para mais uma convenção de confronto. Se for assim, o partido sairá dela irremediavelmente dividido, qualquer seja a decisão da maioria na convenção.

Sérgio Abranches

Não há como unir o PMDB em torno de qualquer candidatura, Dilma Roussef, José Serra, ou candidato próprio. Serra perdeu para Lula, tendo o PMDB como aliado. Uma parte significativa das máquinas regionais trabalhou para Lula naquela eleição. O caso da candidatura de Ulysses Guimarães, em 89, foi paradigmático. Ele era a principal liderança do partido, exercia autoridade sobre suas bancadas, no entanto, boa parte dos caciques regionais apoiou Fernando Collor e uma parte menor, Mário Covas. Ambos tiveram mais votos que o Dr. Ulysses, como era conhecido.

O presidente Lula está investindo tudo que pode na aliança com o PMDB, de onde deseja retirar o vice da chapa de Dilma Roussef. A coligação teria algumas vantagens práticas para a candidatura presidencial. A principal seria aumentar o tempo de TV. Mas tempo demais no horário eleitoral gratuito não tem eficácia comprovada. Os dados de audiência mostram que o ganho marginal de cada minuto adicional, a partir de 10 minutos, é mínimo. Dependendo do programa, há perda na margem. Ou seja, programa chato e longo repele audiência.

A coligação terá custos altos para o PT e o PMDB. O maior deles é que ambos terão que ceder espaço na Câmara ao aliado. Perderá mais, o partido que, isoladamente, tiver condições de eleger maior número de deputados. Provavelmente, o PMDB. Mas ambos perdem. Nas eleições estaduais, onde os dois são rivais históricos e polarizados, as perdas serão mais visíveis. Qualquer sacrifício de candidatos a governador, deputado estadual e senador, será grande demais, sobretudo da perspectiva de muitos de seus caciques regionais. Principalmente, se a chapa presidencial não ganhar. Nesse caso, as perdas são totais.

As divisões internas do PMDB são insolúveis. A análise de custo-benefício da coligação com o PT não é favorável para a solução da maioria dos conflitos entre as diversas alas de caciques que formam o condomínio do PMDB. Ainda mais porque não se trata de uma candidatura com sinais de favoritismo sobre as demais. Ao contrário.

O que sustenta a aposta dos setores lulistas do partido na aliança é a crença na capacidade do presidente Lula de transferir sua popularidade para a votação de Dilma Roussef. Crença sem qualquer fundamentação empírica ou histórica. Era diferente na disputa de Lula pelo segundo mandato com Geraldo Alckmin (PSDB-SP). Alckmin não era páreo para Lula. Ainda assim, o presidente só garantiu a reeleição no segundo turno.

Uma convenção peemedebista agora, como anunciada por Dilma Roussef, na qual o partido anunciaria o apoio a sua candidatura, nada garante. Pela legislação eleitoral, só as convenções no prazo legal. As convenções para decidir sobre coligações e candidaturas só estão autorizadas a partir de 10 de junho do ano que vem. Portanto essa decisão teria que ser ratificada meses depois. Até lá, se Dilma não mostrar avanços significativos e sustentáveis nas pesquisas, mesmo os aliados mais próximos podem abandoná-la. É óbvio que se, acontecer o anúncio em outubro, como disse Dilma, não é para valer. É só uma manobra sem efeito concreto.

As concessões que Lula faz ao PMDB suplantam largamente os benefícios possíveis de uma coligação com um aliado que será inevitavelmente infiel. Nem mesmo a adesão real do partido à coligação está garantida. O presidente está jogando no limite com o PMDB. Põe em risco a reputação, a moral do governo e do PT. A proteção, por exemplo, ao senador José Sarney (PMDB-AP) causou danos morais e políticos a vários parlamentares importantes do PT, que não tiveram independência suficiente para votar com sua consciência contra o caudilho maranhense e senador pelo Amapá. Pode ter consequências eleitorais adversas para muitos deles. O PT perdeu políticos, lideranças e militantes, por causa dessa atitude. Pode não valer a pena, no final.

Coligações e coalizões amplas demais são um vício da política brasileira. Geralmente, levam partidos bons – ou menos ruins – a se igualarem aos piores, que se tornam pivôs das maiorias parlamentares. Esses partidos-pivô, sem princípios e sem programas, que só pensam em negociar seus votos por benefícios, viram a garantia da governança. A qualidade da governança é da por esses partidos-pivô e não pelo cabeça da coalizão. O presidente e seu partido se tornam reféns deles. A escolha do aliado é que define a qualidade do governo que teremos, no caso de sua vitória.


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