Trilhas
24 setembro, 2009

Estamos atravessando as fronteiras planetárias e isso pode ter conseqüências desastrosas para nós

Estamos há muito tempo em uma rota insustentável: excedemos os limites seguros de emissões de gases de efeito estufa, poluição e outras formas de extrair recursos do planeta e despejar o resto de nossas atividades em sua atmosfera, água e solo.

Sérgio Abranches

O que tiramos da Terra e o que depositamos nela tem sido chamado de nossa “pegada ecológica”. E sabemos que nossa pegada deixou de ser sustentável há muito.

Criamos diversos desequilíbrios e eles se tornaram cada vez mais agudos, por meio de um intrincado sistema de retroalimentação (feedback). Agora, Gaia está se vingando, como disse James Lovelock. Seu ar nos sufoca, a água está se tornando escassa, o solo erodido, a poeira sufoca grande número de pessoas e cobre vilas inteiras na Ásia e na África. E o planeta esquenta cada vez mais rapidamente.

Todos sabemos disso. Alguns não querem acreditar. Outros, nem ligam. A maioria de nós está profundamente preocupada.

Uma nova visão desse processo acaba de ser publicada por um grupo de notáveis cientistas, inclusive o prêmio Nobel Paul Crutzen, mais Hans Joachim Schellnhuber, Will Steffen, Katherine Richardson, Jonathan Foley, e o autor principal, Johan Rockström, Diretor Executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo.

Essa nova perspectiva, nos diz a Revista Nature em um esplêndido artigo, foi proposta para definir as precondições para o desenvolvimento humano. “Atravessar determinados limites biofísicos poderia ter consequências desastrosas para a humanidade”, explica a Nature. Os autores concluem que “três de nove fronteiras planetárias interconectadas [identificadas e quantificadas] já foram transpostas.”

Como eles chegaram a essa conclusão? Um artigo do Centro de Resiliência de Estocolmo, “Tipping towards the unknown”, conta como foi. “Os cientistas primeiro identificaram os processo no Sistema Terra e seus limites potenciais que, se ultrapassados, poderiam gerar mudança ambiental inaceitável para a humanidade”. Esses limites permitiram que identificassem as “fronteiras” que precisariam ser respeitadas para reduzir o risco de que ultrapassássemos aqueles limites.

Nove fronteiras planetárias foram identificadas, incluindo mudança climática, ozônio estratosférico, mudança no uso da terra, uso de água fresca, diversidade biológica, acidificação do oceano, influxos de nitrogênio e fósforo na biosfera e nos oceanos, carga de aerossóis e poluição química.

Os autores “estimaram que a humanidade já transgrediu três fronteiras planetárias: mudança climática, perda de biodiversidade, e mudanças no ciclo de nitrogênio”. Mais ainda, “ essas fronteiras planetárias são interdependentes, porque transgredindo uma delas pode tanto mudar a posição, ou resultar na transgressão, de outras fronteiras”. O estudo afirma que “os impactos sociais da transgressão dessas fronteiras serão uma função da resiliência sócio-ecológica das sociedades afetadas”.

Como eles dizem no sumário do relatório de pesquisa, “Fronteiras Planetárias: Explorando o espaço para operação segura da humanidade”, o “conceito ‘fronteiras planetárias’ cria as condições para mudar nossa perspectiva rumo à governança, à gestão e à estimativa do espaço seguro para o desenvolvimento humanos, deixando de lado as análises essencialmente setoriais de limites ao crescimento, que objetivam minimizar externalidades negativas.” Essas fronteiras planetárias definem o campo no qual a humanidade pode jogar, “se quisermos evitar, com segurança, maiores mudanças ambientais induzidas pelo ser humano, em escala global”.

Os autores concluem dizendo que: “Há pouca dúvida de que as complexidades dos processos interdependentes de retroalimentação lenta e rápida no Sistema Terra criam um paradoxo desafiador para a humanidade. De um lado, essas dinâmicas sustentam a resiliência que habilita o planeta Terra a se manter em um estado que conduz ao desenvolvimento humano. Do outro lado, eles nos induzem a um falso sentimento de segurança, porque a mudança incremental pode levar a que ultrapassemos inesperadamente limites que conduzem o Sistema Terra abruptamente a estados danosos ou até catastróficos para o bem-estar humano. O conceito de fronteiras planetárias fornece um quadro de referências para a humanidade operar dentro desse paradoxo”.

Um estudo extraordinário, inovador, de ponta. Recomendo a leitura.


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