Trilhas
22 setembro, 2009

Cúpula do Clima de New York: não será o fim do impasse, mas será um passo adiante para fechar um bom acordo.

O futuro do acordo de Copenhague está sendo em parte jogado em New York hoje. A Cúpula do Clima já ganhou significado diplomático.

Sérgio Abranches

O presidente Barack Obama foi o primeiro chefe de estado a falar, e foi seu primeiro discurso na ONU. Fez um discurso fortemente motivacional, não tratou de nada específico, nem assumiu qualquer compromisso firme. Também não se dispôs a apontar que caminho ele considera mais frutífero para romper o impasse em Copenhague.

O presidente chinês, Hu Jintao, foi uma rara presença em uma cúpula nas Nações Unidas, embora seu discurso tenha ficado aquém das expectativas dos observadores, ele sinalizou alguns avanços na posição chinesa.

Francamente, não se deve esperar demais de um discurso de abertura em uma cúpula da ONU. Essas ocasiões servem mais a objetivos motivacionais, propagandísticos e políticos, nessa ordem.

O presidente Obama manteve seu foco basicamente na motivação para a ação. Ele fez alguma propaganda, também, de iniciativas que seu governo já adotou, e enviou uma discreta mensagem ao Congresso de seu país. Falou para a audiência global e para seu público interno. Foi um discurso de abertura, não um comunicado final.

A intenção do presidente Hu Jintao foi sinalizar as propensões da China a colaborar para o fechamento de um acordo efetivo em Copenhague.

Ele delineou o novo plano da China para conter as emissões de gases estufa, que inclui “metas nacionais” e medidas para reduzir as emissões por unidade de PIB “de modo significativo até 2020, em relação a 2005”. Ele não deu números precisos nem para as metas nacionais, nem para as reduções na intensidade de carbono da economia chinesa. Disse que a China aumentará substancialmente sua cobertura vegetal e o investimento em tecnologias limpas e energias renováveis. Também estabeleceu limites: “Nós precisamos combinar nossos esforços de combate à mudança climática com esforços de crescimento nas nações em desenvolvimento”.

No plano diplomático, a presença de Hu Jintao não deve ser subestimada. Foi o primeiro presidente da China a comparecer a uma cúpula da ONU nos últimos 30 anos. É um gesto que marca o dia em que a mudança climática se tornou um tema no topo da agenda do governo chinês, tanto no âmbito doméstico, quanto diplomático.

Tampouco a presença de Obama deveria ser minimizada. Um dos momentos mais significativos da cúpula será quando ele e Hu Jintao se encontrarem para discutir um terreno comum para ação dos dois países nas próximas etapas da negociação do clima.


Outro ineditismo foi o discurso do novo primeiro-ministro japonês, Yukio Hatoyama, o primeiro a não ser eleito pelo Partido Liberal em mais de 50 anos. Ele mostrou sua clara intenção, em bom inglês, de dar ao Japão um papel mais proeminente na política global. Anunciou a meta de redução de 25% das emissões do país, até 2020, em relação a 1990. Mais ambiciosa do que a meta atual, fixada pelo governo anterior. Também disse que os países desenvolvidos é que devem liderar o enfrentamento do desafio climático global.

O presidente Sarkozy propôs uma nova cúpula do clima em Novembro, antes de Copenhague, como mais uma oportunidade para trabalhar os impasses e ir desfazendo gradualmente os nós que impedem o consenso. Se sua proposta for aceita, o segundo semestre será totalmente dominado pela diplomacia da mudança climática global, outro sinal de que o tema ganha espaço na agenda política das grandes potências. De New York, os principais chefes de governo e estado vão para Pittsburgh para discutir, no G20, os próximos passos da política de recuperação econômica e mudança climática. Em novembro podem se encontrar uma vez mais, se a proposta de Sarkozy for aceita. Finalmente, ainda terão a chance de se encontrar em Copenhague, em dezembro, como já proposto pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, para aparar as últimas arestas e se assegurar de que o acordo será mesmo fechado.

É dessa forma que se resolvem os impasses diplomáticos. Ocupando o centro da agenda das potências, desenvolvidas e emergentes, e engajando seus líderes em uma negociação continuada e incansável.

Falando realisticamente, eu diria que a Cúpula do Clima de New York não romperá o impasse. Mas será um passo importante nessa direção. Ela permitirá algum avanço no entendimento comum do problema pelos principais agentes diplomáticos globais, de seus interesses distintos e de suas propensões políticas. Também ajudará a estabelecer os limites de cada parceiro, esclarecendo como diferentes contribuições podem somar para conformar um acordo que fique estritamente nos parâmetros requeridos pela ciência.

Ninguém que entenda os limites e possibilidades da política real pode acreditar na viabilidade de um acordo com obrigações iguais para todos. Haverá sempre um inevitável compartilhamento desigual do esforço global.

O acordo terá que dar espaço para essas responsabilidades diferenciadas, ao mesmo tempo em que mantenha as exigências de redução de emissões no nível determinado pelos parâmetros científicos. Compartilhar esse esforço em diferentes proporções, porém, não significa fazer menos que o máximo na capacidade de cada país, nem transferir o ônus para os outros.

Compromissos e compartilhamento de esforços não devem, tampouco, ser fixos no tempo. O acordo deve contemplar um mecanismo que determine a redefinição de metas e compromissos à medida em que as circunstâncias locais e globais evoluam e considerando os resultados em intervalos pré-definidos de tempo.


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