Análise
21 setembro, 2009

Eleição de 2010 começa oficialmente no dia 3 de outubro.

Sérgio Abranches

É quando se encerra o prazo para filiações partidárias. A ministra Dilma Roussef, está fazendo uma forte investida na mídia esta semana, para contrabalançar a provável divulgação de pesquisas que lhe são desfavoráveis. Ela acaba de sinalizar que o PT pode indicar seu nome até o final de outubro.

Essa indicação lhe daria mais uma vantagem: além de ser a única candidatura em plena campanha, nos palanques montados quase semanalmente pelo presidente Lula Brasil afora, passaria a ser a única candidatura oficializada por um partido político.

Apesar de estar no palanque com Dilma há meses, e de a campanha governista ser a única na rua, a ministra não tem bom desempenho nas pesquisas. Dilma Roussef estabilizou sua posição nas pesquisas, apesar de ter maior e mais constante exposição que seus concorrentes. Ela conta com todo o prestígio do presidente Lula, que nunca esconde a estar trabalhando como sua candidata. A despeito de estar no palanque o tempo todo, ela não consegue, sequer, se afastar dos números de Ciro Gomes e Heloísa Helena, ambos sem exposição, alavancados apenas por um recall de eleições há muito passadas. Não decola. O presidente sabe que não é por defeito, é porque escolheu alguém que não é do ramo político-eleitoral.

Lula quer fazer o sucessor. Tem o mesmo sonho de hegemonia que o PSDB teve no passado. Sua esperança vem dessa crença na sua capacidade pessoal de persuasão da maioria do povo. Mas ela é pessoal e intransferível. Se Dilma fosse boa candidata, teria luz própria e isso talvez não fosse tanto to agrado do presidente. Dilma não tem força eleitoral própria e nunca terá. Ou Lula transfere a sua para ela, ou nada feito.

Essa transferência, no plano nacional, nunca aconteceu na história eleitoral desse país. Mesmo no caso de Fernando Henrique Cardoso, dizer que o presidente Itamar Franco o fez seu sucessor, é forçar demais a mão. Itamar nem participou da campanha e sempre teve sentimentos muito contraditórios em relação à candidatura de seu ex-ministro das Relações Exteriores  e da Fazenda. FHC foi eleito pelo Plano Real, da mesma forma que o PMDB se agigantou com o Plano Cruzado, dos tempos de Sarney na presidência. FHC foi reeleito pelo medo de colapso do Plano Real. Sua popularidade se dissolveu como sorvete ao sol tropical porque a população ficou com a sensação de que ele permitiu que o Real perdesse sua força, na desvalorização de 99, ao contrário do que prometera em campanha.

Lula cresceu nos descaminhos do Real, cuja crise levou à super-desvalorização, ao retorno de uma inflação parruda e à recessão, com perda de renda real. Aproveitou para desfazer a boa imagem do governo e de FHC e pintá-los com vilão. Conseguiu, com a ajuda da economia. Até aí ele conta. O que nunca contou é que não foi Palocci quem re-estabilizou a economia, mas a metodologia de metas de inflação, implantada por Armínio Fraga e sua equipe, que ele e Palocci mantiveram.

A economia está do lado do governo, até agora, nesse período pré-eleitoral e Lula a tem usado ao máximo para alavancar sua candidata. Às vezes, porém, nem a economia…

O Plano B de Lula, não parece ser outra candidatura, mas a sua própria, em 20014.

Os tucanos e Ciro Gomes estão ainda atuando como coadjuvantes das iniciativas do governo e da candidatura Dilma Roussef. Heloísa Helena já, ao contrário, parece determinada a não concorrer à presidência e deixar o campo limpo para a senadora Marina Silva.

O PSDB é coadjuvante por falta de substância: está perdido, sem liderança, sem idéias e sem definição. Virou uma geléia quase geral, com parlamentares que defendem empresas que usam trabalho escravo e pedem a desproteção da Amazônia; outros que querem censurar a Internet, como o senador Eduardo Azeredo, ex-presidente do partido. Sem candidatos, num paso doble sempre meio tropeçado entre José Serra e Aécio Neves, não consegue encontrar um caminho na oposição, que não exerce com competência, nem sabedoria. Quando vira oposição, nada faz mais que gritar e perder as estribeiras. No resto do tempo, é acessório, sem iniciativa e sem ação.

Tem só um trunfo, que são os 40% de Serra nas pesquisas. Carlos Alberto Montenegro, do Ibope, acha que essa vantagem, a um ano da eleição, é sinal de elevada probabilidade de vitória. Eu não acho. Olhem as pesquisas de 1993, antes do Plano Real. FHC ia mal, com viés de queda, Lula subia e tinha mais que o dobro que ele nas pesquisas. Naquela eleição, foi o Real que virou a parada parada para o tucano. Em política, não existe espaço vazio. A ausência dos tucanos abre espaço para os outros. Se souberem aproveitar, os tucanos podem ficar em maus lençóis.

Ciro Gomes é quase sempre de posições muito definidas. Mesmo quando muda de posição, tem definições fortes sobre a nova atitude. Mas, no momento, anda sendo vago com relação à sua candidatura. Pode ser que se defina mais nos próximos dias. Suas chances de ir para o segundo turno – se souber conduzir a campanha com temperança – nunca foram tão boas. Se conversar com bons marqueteiros, vai ouvir o mesmo. Ele polariza fortemente com Serra, se o tucano for o candidato do PSDB. O mesmo não é necessariamente verdade em relação a Aécio Neves. A definição de Ciro sobre sua candidatura é relevante para o quadro eleitoral porque delimita o campo de ação do PSB, enquanto legenda partidária disponível para alianças.

Serra e Aécio estão, no momento, em intensa movimentação de bastidor, para evitar que o  PMDB feche chapa com Dilma Roussef e verticalize suas alianças, como quer o presidente Lula. É boa a chance de que ganhem essa parada. Para o PMDB, a posição mais lucrativa é ter candidato próprio, ainda que condenado à derrota no primeiro turno. Isso lhe permitiria alavancar suas posições na Câmara e no Senado e vender caro seu apoio na formação do próximo governo, dando-lhe a garantia da maioria, em troca dos filés do ministério, que sempre ambiciona. A segunda melhor opção, no caso de um candidato se mostrar franco favorito no segundo turno, seria fechar com ele já nessa segunda rodada. A pior seria entregar seu cacife a uma candidatura duvidosa e não ter liberdade suficiente para trabalhar pelas bancadas federais, que lhe garantirão força na próxima coalizão governista.

Por fora, vem correndo a senadora Marina Silva, que pode ser a grande novidade dessa campanha. Ela está sendo subestimada pelos adversários, o que é bom. Mas anda com a idéia de atrasar também o anúncio de sua candidatura, o que pode ser um erro. Perderia a oportunidade de ocupar os espaços vazios pela vacilação de uns e pelo mau desempenho de outros junto ao eleitorado.

O anúncio da ministra-candidata-de-Lula pode precipitar pelo menos algumas das definições em suspenso. A ver.


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