Você sabe, a complacência voltou…
Acabou a crise? A economia global está muito diferente do que era antes da tragédia? Os governos fizeram o dever de casa? Estamos mais seguros agora? Sérgio AbranchesEu examinei várias análises econômicas da crise financeira global no aniversário da queda do Lehman Brothers.
A maioria se resume ao seguinte: a. as projeções para a crise foram muito pessimistas; b. o pior já passou; c. a economia mundial está se recuperando, ainda que devagar; d. o estímulo fiscal funcionou; e. os governos, porém, não adotaram as regras de precaução e a reforma do quadro regulatório que se haviam mostrado necessárias. Alguns criticaram o volume excessivo de recursos comprometidos com os estímulos fiscais, especialmente no EUA. Outros dizem que a Alemanha, por exemplo, não fez o suficiente esforço fiscal para estimular sua economia. Houve elogios moderados à coordenação fiscal entre as maiores economias, basicamente no âmbito do G20. O desempenho do FMI e do Banco Mundial também recebeu avaliação positiva.
Foi tudo assim tão bom mesmo?
Os cenários de crise foram de fato mais pessimistas do que a realidade se mostrou. Quem acredita nisso, não pode aceitar a crítica de que o estímulo fiscal foi excessivo, porque ele foi dimensionado com base nos cenários de fim de mundo apresentados aos governos e parlamentos pelos economistas e pelos gênios dos gigantes financeiros em perigo.
Alguns analistas argumentam que o tamanho dos pacotes fiscais de países como o EUA e o Japão levarão a uma segunda fase da crise, marcada por alta inflação. Porque a crise reverteu mais rápido que o esperado e foi menos que o tsunami previsto por muitos cenários, os estímulos fiscais ficaram superdimensionados em ambos os países. Alta inflação levará a políticas fiscais e monetárias mais conservadoras que trarão de volta a recessão.
Alguns outros, em menor número, são ainda mais céticos sobre a afirmação de que o pior já passou. Ainda acreditam em um cenário no qual uma crise estrutural de longa duração, com altos e baixos de curta duração no seu interior, não pode ser totalmente descartado. Significando que haverá mais episódios de crise, após a recuperação atual, e antes que o pior fique para trás de verdade.
Confesso meu desconforto com os quadros mais róseos que pintam uma crise que já passou em definitivo. Também me preocupo com o risco de inflação e políticas contracionistas. Mas minha maior preocupação é com o que não mudou e com o que não aconteceu no momento que a quebra trouxe o pânico.
A morfologia do sistema financeiro mudou muito. Vários ícones do império financeiro de antes da crise não estão mais por lá. Wall Street ficou menos lotada e mais concentrada. No entanto, nada mudou realmente nas camadas mais profundas do sistema que determinam a maior parte do comportamento dos mercados financeiros. A mudança que ocorreu foi na superfície.
Mais ainda, a onda de choque teve consequências negativas mais duráveis no “andar de baixo”, sob a forma de empregos e negócios da economia real destruídos. Parte da riqueza perdida no andar superior, das altas finanças, eram poupança dos estratos médios mais jovens da sociedade, que financiariam a educação dos filhos, a casa própria, ou pequenos e médios negócios no futuro. Uma outra porção significativa da riqueza financeira perdida era para pagar a complementação de renda na inatividade e as aposentadorias dos estratos mais maduros da classe média. Esses são fatores de distúrbio a longo prazo, ainda por vir.
Uma fonte do mercado financeiro me disse que quase tudo está de volta em seu lugar, em Wall Street, na City de Londres e outros centros do império financeiro global. A complacência voltou, a aversão ao risco está cedendo, a busca de ganhos de curto prazo voltou. Vários daqueles que perderam seus empregos nas finanças estão de volta. Enquanto isso, as economias reais se movem a um ritmo muito menor. Mesmo em países como o Brasil, onde muita gente, e especialmente os governos, acham que as coisas nunca foram realmente tão mal assim e que a recuperação foi rápida e completa, as feridas ao longo da economia real e nas casas dos desempregados ainda estão abertas e sangrando.
Esta semana, em New York, conversei com um cara que tem um pequeno negócio no setor de serviços. Eu havia estado com ele, lá mesmo, no auge da crise. Naquela época estava em desespero. Havia acabado de comprar casa nova próximo a New York, e estava tendo problemas com a hipoteca. A casa estava com valor de mercado 40% abaixo do que ele havia hipotecado. Estava com medo de não ser capaz de pagar as prestações e com medo de ser capaz de pagar e dar mais dinheiro ao banco do que jamais conseguiria obter com a venda do imóvel no futuro. Lutava com o risco do despejo e com o risco de pagar mais do que o valor real da casa. Ele me contou que estava tentando renegociar a hipoteca, mas não conseguia sequer marcar uma entrevista com seu gerente no banco. “Ele está tendo que lidar com milhares de casos iguais ao meu”, me explicou.
Perguntei a ele, na última quarta-feira, se havia resolvido o problema da hipoteca. “Não, ainda estou esperando por uma resposta ao meu pedido de negociação”, respondeu. Mas ele não estava nem desesperado, nem ansioso. “Preenchi todos os papéis, o gerente finalmente me recebeu, agora estou esperando. As coisas estão melhorando devagarinho”, disse. “Os bancos não estão mais em crise, eles estão ganhando tanto dinheiro quanto antes, o valor dos imóveis está recuperando. A pressão diminuiu já não corro o risco de ser despejado. Eles estão demorando muito a me dar uma resposta, mas, você sabe, eles estão tendo muito trabalho, têm que processar milhares de casos como o meu”.
Era o que minha fonte no mercado estava me dizendo também. Eles estão ganhando muito dinheiro e esquecendo as lições da crise. A complacência voltou.
E a regulação? Eu vi o discurso do presidente Obama em Wall Street, no aniversário do colapso do Lehman Brothers. Ele repetiu todas as promessas em relação ao projeto de lei definindo um novo quadro regulatório para o setor financeiro, especialmente mirando nos setores e atividades que hoje estão fora do alcance de qualquer agência. Nada foi feito até agora. A reação entre os congressistas e os representantes do setor financeiro foi negativa. Muitos disseram que não há necessidade de mais regulação. Alguns viram até socialismo e estatismo nas palavras de Obama.
Os presidentes Obama, Sarkozy e Lula, e o primeiro ministro Gordon Brown prometem lutar por um quadro regulatório multilateral para transações financeiras globais, e por regras para a efetiva coordenação global macroeconômica e regulatória, no G20, em Pittsburgh, semana que vem.
O presidente Obama disse em seu discurso que a regulação doméstica não funcionará se não houver coordenação global e se todas as nações com papel relevante no mercado global de capitais não adotarem quadros regulatórios similares, para seus próprios mercados.
O primeiro ministro da Austrália, Kevin Rudd, e o presidente da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, fizeram várias recomendações ao G20 sobre a coordenação macroeconômica necessária para administrar a transição da crise para a recuperação.
A história é simples: fizemos a parte fácil, com custos futuros, isto é, o estímulo fiscal, e ela funcionou, pelo menos para evitar uma depressão econômica mundial longa e profunda e para reverter a crise, no curto prazo. A tarefa pesada de construir um novo marco regulatório e promover a coordenação macroeconômica e regulatória no âmbito do G20 ficou por fazer.
Perguntei a um economista agora na vida universitária, mas que trabalhou em Wall Street por mais de três décadas e saiu pouco antes da crise, se ele acreditava que Obama conseguiria passar o projeto de lei regulatória. Ele respondeu que não. “A crise já passou, você sabe, a complacência voltou…”
O politólogo Daniel Drezner, da Fletcher School of Law and Diplomacy, na Universidade Tufts, diz em seu blog na Foreign Policy que ele acreditará em coordenação macroeconômica no G20 no dia em que a vir acontecer. Digo o mesmo.
Parece que o encontro do G20 discutirá duas decisões fundamentais que estão bloqueadas até agora e que têm a mesma lógica: reformas regulatórias e macroeconômicas, e um novo protocolo sobre mudança climática. Nos dois casos, esforços domésticos não darão resultados duráveis a não ser que todos os países relevantes adotem políticas similares, mesmo havendo espaço para alguma diversidade de ritmo e intensidade, e na ausência de efetiva coordenação global.
Não faço altas apostas no papel do G20 em Pittsburgh para romper esses bloqueios, seja na reforma estrutural dos sistemas financeiro e econômico, seja no acordo global do clima. Mas estou pronto apostar algumas fichas de que a cúpula também não será uma perda total. Haverá algum progresso na compreensão comum de ambos os desafios e essa convergência de entendimento será muito importante no futuro próximo, quando eventos tanto econômico-financeiros, quanto climáticos vierem a exigir decisões muito mais duras do que aquelas que estamos preparados para tomar agora.
Tags:crise, G20, inflação, mercado financeiro, mudança climática, pacote fiscal, política global, regulação


