Aquecimento global: estamos caminhando para o apocalipse?
Sérgio Abranches
A afirmação do negociador chefe para a mudança climática do EUA, Todd Stern, na Comissão Especial para Independência Energética e Aquecimento Global da Câmara dos Deputados, de que o “tom dominante nas negociações formais da ONU é de dificuldade”, é apenas o alerta mais recente da deterioração da probabilidade de um acordo efetivo em Copenhague.
Stern também pediu ao Senado que “faça sua parte, avançando no processo decisório para aprovar a legislação sobre mudança climática em tempo hábil”. Afirmou que “nada há de mais importante que os Estados Unidos possam fazer para o processo de negociação internacional que passar uma legislação robusta sobre energia limpa o mais rápido possível”.
Enquanto isso, novas evidências científicas e novos alertas dos cientistas do clima dão conta de que estamos nos aproximando de um ponto sem retorno no aquecimento global. A Royal Society, a Academia de Ciências do Reino Unido, publicou recentemente um relatório dizendo ser “provável que o aquecimento global exceda os 2°C neste século, a não ser que as emissões de gases estufa sejam cortadas em pelo menos 50% em relação aos níveis de 1990, até 2050, e ainda mais drasticamente daí em diante”. O relatório diz ainda “que a menos que os esforços futuros de redução das emissões de gases estufa sejam mais bem sucedidos do que têm sido até agora, ações adicionais terão que ser tomadas para esfriar a Terra ainda neste século”. Precisaremos de um “Plano B”, que envolverá a geoengenharia, “intervenção deliberada de larga escala no sistema climático da Terra, para moderar o aquecimento global”.
A Royal Society defende financiamento substancial para pesquisas que estudem os usos e consequências da geoengenharia. Propõe a formulação de um “código de ética para a pesquisa em geoengenharia” e oferece recomendações para regras de governança voluntária da pesquisa”. John Shepherd, que coordenou o estudo da Royal Society, disse no lançamento do relatório que a geoengenharia pode se tornar “a única opção que nos resta para limitar os aumentos futuros de temperatura”.
Essa perspectiva nos põe diante de uma “escolha trágica” entre as consequências climáticas do aquecimento global irrefreado e os riscos da geoengenharia. Shepherd notou que a pesquisa por ele coordenada “determinou que algumas técnicas de geoengenharia poderiam ter sérios efeitos não intencionais e prejudiciais para muitas pessoas e ecossistemas”.
Um dos painéis de que participei na reunião anual da Associação Americana de Ciência Política, em Toronto (Setembro 3-6), foi sobre “Geoengenharia e Ordem Global”. O cientista político e autor Thomas F. Homer-Dixon, da Universidade de Waterloo, argumentou que diante do fato de que os determinantes do aquecimento global são mais fortes que os fatores de mitigação, “o princípio da precaução requer que pesquisemos agressivamente a geoengenharia e nos preparemos para usá-la extensivamente”. Ele recomenda que nos asseguremos de que temos todas “as setas em nossa aljava e a geoengenharia é uma delas”.
O físico Jason Blackstock, do Instituto Internacional para Análise Aplicada de Sistemas, alerta para o fato de que há significativa incerteza sobre a resposta espacial e temporal das tecnologias mais promissoras de geoengenharia, tornando seu uso no curto prazo extremamente arriscado.
Os métodos que a comunidade científica considera mais promissores são de Engenharia Climática de Onda Curta. Segundo Blackstock a ciência física básica, modelagens climáticas exploratórias, e os impactos de aerossóis vulcânicos no clima sugerem que esse método poderia compensar parcialmente alguns efeitos do aumento de CO2 na atmosfera, particularmente o aquecimento global líquido. Os dados disponíveis também “mostram limites importantes no espectro de impactos do CO2 acumulado que eles poderiam mitigar.”
Blackstock defende aumento da pesquisa sobre os riscos e possibilidades da geoengenharia, dado que poderemos ter que recorrer a ela como recurso de última instância. Consequências indesejáveis serão, contudo, inevitáveis e afetarão mais os países do cinturão tropical, menos interessados em ou menos dotados de recursos para estudar esses métodos de intervenção no sistema climático.
A conclusão é que “poderemos ter que escolher um outro tipo de mudança climática no lugar daquela para a qual estamos marchando”. Esse tipo de “dilema da escolha trágica” requer imediata resposta a problemas ainda sem solução relativos à governança internacional da pesquisa em geoengenharia. Ele sustenta que precisamos começar a estudar, com rapidez e eficiência, quem deve fazer essa pesquisa; como, quando, sob que condições, e por quem esse conhecimento será apropriado e poderá ser usado.
Blackstock é co-autor do relatório “Climate Engineering Responses to Climate Emergencies”, indicando que “o sistema climático pode ser inerentemente complexo demais – e, portanto, a possibilidade de efeitos colaterais danosos não antecipáveis grande demais – para que qualquer intervenção humana intencional possa ser considerada segura”. Um ponto para o qual ele também chamou atenção em sua apresentação no painel da APSA. Outro risco relevante da geoengenharia é o de que seja percebida como um substituto para a redução das emissões de gases estufa e sirva de justificativa para não agir. Os “céticos da mudança climática”, como Björn Lomborg, já estão defendendo essa tese. Além disso, tensões internacionais significativas poderiam surgir a respeito de quem poderá definir qual seria o clima “ótimo”, diz o relatório.
Estamos mesmo caminhando para um cenário catastrófico, no qual teremos que escolher entre a mudança climática que estamos causando com nossas emissões de gases estufa e a mudança climática que podemos gerar tentando fazer uma engenharia no sistema climático?
Se a taxa de emissões não cair radicalmente nas próximas três ou quatro décadas, a resposta é sim. Alguns analistas estão convencidos de que não podemos mais evitar o cataclisma climático. No painel da APSA “Evitando o Apocalipse ou Adaptando a ele: Lidando com a Mudança Climática”, Wolfgang Brauner, cientista político da Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, sugeriu que mesmo com “a máxima mitigação é improvável que evitemos a mudança climática catastrófica”, e ela “sobrecarregará a capacidade adaptativa e a resiliência dos sistemas social, político e econômico”. Enfrentaríamos aumentos de temperatura em torno de 4oC, entrando essencialmente em território desconhecido para a ciência.
Esse cenário parece muito pessimista, mas o fato é que não estamos fazendo progresso algum até agora que nos permita evitá-lo. Eu falei no painel “Não é Fácil virar Sustentável” sobre como seria vantajoso para o Brasil construir uma economia de baixo carbono. Os custos para nós seriam comparativamente baixos, por causa da matriz energética relativamente limpa e porque a maior parte de nossas emissões vêm do desmatamento e degradação. Ainda assim, nossa elite política e empresarial resiste a essa conversão.
Wei Liang, do Instituto de Estudos Internacionais de Monterey mostrou que, a despeito dos custos ambientais que o país está enfrentando, o governo chinês não tomará nenhuma medida para fazer parte de um acordo climático efetivo, se isso colocar minimamente em risco a perspectiva de crescimento econômico de curto prazo.
No EUA, o Senado adiou a decisão sobre a lei sobre energia limpa. O Negociador Chefe para Mudança Climática, disse que as negociações estão perigosamente paradas. Essa também é a opinião do Secretário de Relações Externas do Reino Unido, David Miliband. Alguns dias atrás ele avisou que há “um perigo real de que as negociações para enfrentar a mudança climática possam entrar em colapso, com consequências catastróficas”.
Olhando apenas para os poucos painéis dedicados à mudança climática, no encontro da APSA, pode-se ter a impressão de que a ciência política nos Estados Unidos considera a mudança climática o principal desafio de nossa era. Mas não é assim. O presidente da APSA, Peter Katzenstein, sequer mencionou a questão em seu “discurso presidencial”. Ele falou para a principal sessão plenária sobre: “Aquelas Pessoas: Perspectivas Contrastantes sobre a Política Mundial”. É justo supor que tenha falado daquelas questões que considera centrais para a política mundial. A mudança climática não era uma daquelas questões. Dos 1082 trabalhos disponíveis para baixar do site da Rede de Pesquisa em Ciências Sociais dedicado ao encontro, menos de 1% tratavam do desafio do aquecimento global.
Parece que a elite da ciência política dos Estados Unidos não considera o aquecimento global e suas consequências climáticas como um problema central a ser tratado pela disciplina como um todo. A noção de que o EUA lidera as conversações para que se obtenha um ambicioso acordo sobre mudança climática está em contrariedade com a alienação de sua elite acadêmica na ciência política em relação ao mais perigoso problema de governança do século XXI. Como se sabe, a elite acadêmica da ciência política no EUA é muito representativa do que pensa a elite governante.
Parece que deveríamos começar a considerar a hipótese de que o “cenário do apocalipse” está ficando progressivamente mais realista que os “cenários de mudança positiva”, nesse ambiente de política bloqueada e alienação sobre a mudança climática das principais potências maduras e emergentes.
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