Análise
10 setembro, 2009

A Importância de ser Obama

Sérgio Abranches

Obama fez um discurso extraordinário ontem sobre seu plano de seguro saúde. Um discurso que tem elementos que só podem ser entendidos quando se leva em conta a personalidade política singular do presidente do EUA.

Eu vi muitos presidentes do EUA falarem ao Congresso na minha vida de analista político. Não encontro nos meus arquivos da memória nenhum tão franco e direto como esse de Obama. Foi uma peça política única. Um discurso tão afirmativo que chegou a soar como um desafio. Pelo que vazou para a imprensa, o presidente definiu pessoalmente a estrutura e o tom do discurso. Presidentes não escrevem seus discursos. Profissionais fazem isso para eles. Mas o tom e a direção do discurso de ontem tiveram certamente um toque mais pessoal do que é habitual. A mídia conta que Obama trabalhou nele no final de semana em Camp David, modificou o texto várias vezes e deu instruções pessoais para a redação final. O que saiu do TelePrompTer para os microfones teve, adicionalmente, uma entonação cuidadosamente escolhida por um orador excepcional, para marcar suas palavras chaves.

Obama faz parte de uma minoria entre os presidentes do EUA: daqueles com carreiras parlamentares e não com trajetórias no Executivo. Presidentes que foram parlamentares antes de eleitos para a Casa Branca são muito poucos: Lyndon Johnson, Gerald Ford, George Bush pai e Barack Obama. Somente Johnson, Ford e Obama tiveram uma carreira exclusivamente no Congresso antes de chegarem à Casa Branca. Johnson e Ford, porém, foram vice-presidentes. Obama é o único a sair diretamente de Capitol Hill para o Salão Oval.

No entanto, os analistas políticos aqui nos Estados Unidos não acham que essa característica política que diferencia Obama de todos os outros presidentes seja relevante para explicar seu comportamento político e sua atitude diante do Congresso. Pois ela é. Tão relevante ou mais quanto a experiência parlamentar de Johnson foi para se entender a maneira peculiar com que ele negociou com o Congresso, especialmente no que diz respeito à emenda do Medicare ao Social Security Act, em 1965, e suas políticas para o Vietnã.

Obama tinha a consciência aguda do pesado clima no qual iria se dirigir à sessão conjunta das duas Casas do Congresso. Ele tem uma compreensão especial das picuinhas, manobras políticas e do jogo de cena no Legislativo. Ele sabe os limites do entendimento bipartidário em questões controvertidas como Seguro Saúde. Ele já lidou pessoalmente com todos os formadores de opinião política em Capitol Hill. Mais ainda, Obama conhece, melhor que ninguém, a extensão da desconfiança  e do preconceito que ele enfrenta entre seus antigos pares.

Para mim, parágrafos inteiros do discurso soaram como uma mensagem aos pares e não um discurso presidencial diante do Congresso. A linguagem era parlamentar, não presidencial. Outras partes, entretanto, tinham o tom e o sentido de um aviso direto de que não se tratava mais de um par falando a seus colegas, mas do Presidente se dirigindo ao Congresso. Obama sabia quanto seus antigos colegas duvidavam de sua coragem para enfrentar um Legislativo hostil. Sabia também a medida na qual estavam dispostos a desafiar sua autoridade. Várias partes de seu discurso miravam além das paredes do Congresso, dirigindo-se ao seu eleitorado. Seu sucesso eleitoral e a velocidade inédita de sua carreira política deviam servir como pista de sua capacidade de entender os humores da Opinião Pública.

Regimes presidenciais são profundamente influenciados pelas caraterísticas pessoais dos presidentes. Não dá para entender o que se passa hoje no Brasil, sem recorrer aos traços peculiares da formação e personalidade de Lula, por exemplo. A forma específica pela qual um presidente escolhe para afirmar sua liderança e seu caráter pessoal são tão importantes para entender o processo político em um governo em particular, quanto fatores políticos, sociais e econômicos.

A trajetória peculiar de Obama será um elemento que definirá os rumos de seu governo. O fato de que sua qualificação política foi obtida trabalhando na organização política de comunidades, como senador e numa bem sucedida campanha de mobilização, cujo sucesso parecia improvável, claramente afetam suas atitudes políticas e seu comportamento como presidente.

Esses traços políticos pessoais fazem de Obama um presidente singular na história moderna da Presidência no EUA. Eles nos ajudam a entender melhor todas as implicações políticas de seu discurso e de suas atitudes. Foi uma extraordinária peça de oratória. Um estilo inédito de levar a mensagem presidencial a um Congresso com uma oposição hostil e uma maioria vacilante. Foi, a um só tempo, uma mensagem aos pares e uma lembrança aos parlamentares de que ele não era mais um deles, mas o Presidente, com uma carga distinta de responsabilidades e interesses políticos mais amplos.

Se terá sucesso ou não, há que se ver. É um ambiente carregado e muito polarizado. Mas fiquei com o sentimento de que Obama provavelmente conseguiu realizar pelo menos dois de seus objetivos: unir a maioria democrata no propósito de aprovar uma reforma do sistema de seguro de saúde, e persuadir os independentes a se juntarem aos Democratas. É provável que tenha conseguido passar aos Republicanos a mensagem de que ou eles optam por conversar e cooperar, ou ele buscará o caminho da maioria. Se optam pelo entendimento, ele está disposto a ceder mais. A resposta republicana, durante e após o discurso, mostrou que não é provável um fim próximo para a polarização.

Foi um evento político que terá um lugar próprio na história do EUA, independentemente de como termine esse processo. Foi uma rara ocasião, seja porque se tratava de um presidente se dirigindo a uma incomum sessão conjunta do Congresso, seja por causa dos termos inéditos do discurso presidencial, seja por causa das correntes de emoção política que se podia perceber, mesmo à distância, assistindo tudo pela TV.


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