Opinião
24 agosto, 2009

Twitter: Nem Bobagem, nem Bolha, Os Usos Sociais da Tuitagem

Sérgio Abranches

O Twitter não é um brinquedinho fútil, nem um modismo. É possível encontrar várias utilidades para ele. Ele pode ser extremamente divertido e pode com certeza viciar. O Twitter pode até ter começado como um meio de troca de mensagens rotineiras, cotidianas. Mas cresceu para ser muito mais que isso.

A análise política profissional e a sociologia estão apenas começando a captar o peso e as implicações da mídia social, especialmente após a chegada do Twitter. O Twitter, nesse caso, é o território menos desbravado.

Mas já há algumas observações interessantes, a partir de análises do Twitter. As estatísticas de Dan Zarrella, por exemplo, comparando tuítes e retuítes (RTs). Elas mostram que retuítes trazem mais links (57%) que os tuítes originais (19%); tendem a ser mais complexos e menos legíveis (tal como medidos pelos índices Flesch-Kincaid e SMOG de legibilidade); por serem mais complexos, requerem maior nível educacional para serem entendidos, mas tendem a conter mais novidade que os tuítes originais.

Zarrella (@danzarrella) usou o Regressive Imagery Dictionary, um esquema de codificação destinado a medir a quantidade e tipo de três categorias de conteúdo: “primordial (a forma inconsciente como se pensa, como nos sonhos); conceitual (pensamento lógico e racional); e emocional.” Ele descobriu que RTs têm mais conteúdo conceitual, e menos conteúdo primordial e emocional, que tuítes escolhidos aleatoriamente. Ele também mostra que comportamento social e instrumental (palavras construtivas como construir e criar) é retuitável, e pensamentos abstratos e palavras baseadas em sensações não são.

Zarrella também fez uma análise “LIWC” (Linguistic Inquiry and Word Count), para medir “vários componentes emocionais, cognitivos e estruturais presentes em amostras de conversação individual oral e escrita”. Ela mostrou que “tuítes sobre trabalho, religião, dinheiro e mídia/celebridades são mais retuitáveis  que tuítes sobre emoções e sensações negativas, pragas e auto-referências”.

Dannah Boyd, Scott Golder, e Gilad Lotan, estudaram uma amostra de RTs e encontraram que: 52% contêm uma URL; 18% contêm um hashtag, 11% contêm um RT encapsulado; 9% um @resposta que se refere à pessoa retuitando a postagem (“Tweet, Tweet, Retweet: Conversational Aspects of Retweeting on Twitter”). Êpa! Os autores pediram para não citar. Então, por favor, não citem…

A pessoas retuítam por várias razões, eles argumentam: para amplificar ou espalhar a mensagem para novas audiências; para comentar tuítes, para atuar como curadores de nova informação; para tornar visível sua presença como um ouvinte; como um ato de companheirismo ou homenagem; para ganho próprio; para salvar informação para uso futuro. Pode ser uma conversação bagunçada, mas, com certeza, ela faz sentido, eles concluem.

Essas posições contrariam um estudo recente da Pear Analytics sobre o Twitter, mostrando que 40,5% dos tuítes são classificáveis como bobagem: os tuítes tipo ‘estou comendo um sanduíche agora’.

Fora do contexto geral de uma conversação em processo, dizer gratuitamente que estou tomando um café num quiosque da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, pode parecer mesmo uma bobagem. Mas, para meus seguidores, com quem estou envolvido em uma conversação continuada, é uma informação útil. Alguma dessas pessoas pode estar nas proximidades e querer saber se podemos ter uma conversa face a face no quiosque. Ou, ao saber o que estou fazendo, se dar conta de que não estou no escritório ou em casa, portanto tuitando diferente, ou de forma mais esparsa, no meu iPhone.

Quando tuíto que vou dar uma palestra na FEA-USP, numa determinada data, seria bobagem ou “autopromoção” (6% dos tuítes nos dados da Pear Analytics)?

De novo, colocado no contexto de uma conversa continuada, é uma informação útil. Alguém pode querer, por exemplo, ouvir a palestra.

Como esse é um exemplo, real, foi o que aconteceu: uma pessoa realmente foi à palestra e tivemos um excelente papo face a face. Pode-se chamar isso de verificação física de “impressões virtuais”. Felizmente as impressões foram mais que confirmadas.

Há um claro erro na categorização e classificação dos tuítes nesse estudo. Eles só encontraram 3,6% de “notícias”. Mas eles só consideram notícia, aquilo que sai na mídia tradicional, “que se pode encontrar nas estações nacionais de notícias como CNN ou Fox News”. Notícias sobre tecnologia ou mídia social, como as que aparecem no TechCrunch ou Mashable estão excluídas da categoria de notícias.

Essas notícias sobre tecnologia e mídia social, mais as notícias que fluem pelo Twitter de jornalistas independentes, blogueiros ou mesmo jornalistas da mídia tradicional, publicando fora dela, viram “tuítes de conversa”  ou de “transmissão de valores” – 9% – (qualquer tuíte com um ‘RT’).

“Tuítes de Conversa”, 37.5%, viraram uma categoria ônibus – pega tudo: tuítes que cabem em mais de uma categoria, tuítes começando com ‘@’, e “tuítes que vão e voltam entre pessoas, quase como nas mensagens instantâneas, assim como tuítes que tentam atrair seguidores para o diálogo, como pesquisas e perguntas”. A verdade é que todo tuíte é “de conversa”, porque o Twitter é uma conversação.

Classificações impróprias levam à má interpretação dos resultados. Parece que a maioria dos 40,5% classificados como “bobagem sem sentido” não são bobagens, nem sem sentido. Eles revelam seu significado quando adequadamente vistos no contesto do Twitter como uma conversação que emerge porque as pessoas encontram outras pessoas interessantes, compartilham pontos de vista, pensamentos, experiências, informações, sobre praticamente tudo que alguém vá procurar.

Dannah Boyd lembra que o “Twitter – como muitos gêneros emergentes de mídia social – é estruturado em torno de redes de pessoas interagindo com outras pessoas que elas conhecem ou consideram interessantes. (…) Tudo gira em torno da intimidade que não tem valor para o ouvido de terceiros, que não conhecem a pessoa que está dizendo as aparentes bobagens”.

A relações sociais são interações continuadas com memória. Eu sei o que conversei com meus companheiros lá. Por isso não preciso relembrar diálogos passados para continuar conversando. Começo de onde parei da última vez.

O significado socialmente construído, no caso o significado que emerge das interações sociais na comunidade do Twitter, não surge apenas de trocas tipo vaivém de mensagens. Há muitos tuiteiros que seguem vários diálogos silenciosamente, retirando deles informação de conteúdo, adquirindo conhecimento, inspiração e dicas para suas vidas profissionais ou pessoais.

Dannah Boyd (@zephoria) ajuda a entender melhor esse ponto, quando ela mostra que o que os tuiteiros estão fazendo online é “fundamentalmente um misto de cafuné social e fixação de uma consciência social periférica. Eles querem saber o que as pessoas à sua volta estão pensando e fazendo e sentindo, mesmo quando a presença simultânea não é viável”.

Tudo bem, mas não estamos superestimando o Twitter?  E se não passar de uma bolha?  Será que ele não vai desaparecer logo?

Ele tem um crescimento exponencial tipo bolha. A demografia do Twitter é tudo menos precisa, mas grosseiramente falando, os tuiteiros eram 4,4 milhões ao final de 2008, quase dobraram até fevereiro de 2009, chegando a 7 milhões; em agosto, algumas estimativas dizem que já são  47 milhões. Desempenho estonteante. Alguns argumentam que isso é exagerado, porque muitos estão inativos: pelo menos 40% nunca tuitaram, nem têm sequer um seguidor.

Eu encontrei alguns desses “tuiteiros silenciosos” e perguntei porque haviam abandonado o Twitter. Me responderam que não haviam abandonado, estavam “ouvindo”, tentando entender qual é a do Twitter. Alguns, desde então, já seguem várias pessoas seletivamente; outros, já se tornaram tuiteiros ativos.

O Twitter não é intuitivo para todo mundo. Nada tem de parecido com o Facebook, o Orkut ou outros recursos de rede social. Ele é diferente. Para muitas pessoas requer algum aprendizado.

Um estudo do centro de pesquisas PEW mostrou que o uso do Twitter está altamente correlacionado ao uso de outras mídias sociais: o uso de blogs e redes sociais aumenta a probabilidade de que uma pessoa também use o Twitter. Porque ele é diferente, ele adiciona novas possibilidades e reforça outras mídias sociais.

É improvável que o Twitter seja uma bolha prestes a estourar. Ele pode ser substituído, no futuro, por algo que retenha suas funções, enquanto oferece novas funcionalidades. Mas ele também pode se adaptar e evoluir, como já fez. O Twitter hoje é uma espécie diferente daquela que o originou. Mudou dramaticamente, movido pela inovação espontânea que resultou de milhões de interações reais.

Proponho que passemos a olhar o Twitter como uma comunidade diversa. Minhas observações e meu uso ativo me indicaram que há pelo menos três tipos básicos de tuiteiros:

Companheiros – tuiteiros fundamentalmente interessados em compartilhar conteúdo. Entre eles há companheiros líderes e seguidores engajados. Ambos são seletivos em relação a quem seguem, tendem a bloquear seguidores indesejáveis (spammers, pornografia), e deixam de seguir quem se mostre inconveniente, ‘robotizado’ ou desinteressante.

Amigos – ouvintes reais, ouvindo atentamente ao rico intercurso de idéias que se dá no Twitter; aprendendo, preparando para se tornarem tuiteiros ativos; saltando avidamente para qualquer link que atraia seu interesse, para se beneficiar de toda a imensa riqueza de informações que flui pelo Twitter a cada segundo.

“Maximizadores de seguidores” – aqueles interessados em aumentar o número de seguidores, para fins comerciais ou puro narcisismo. Eles seguem para serem seguidos, automatizadamente, e só ouvem uma mínima fração dos que seguem. Há também empresas, vendedores e spammers nessa categoria, mas eles estão ainda menos engajados na conversação. Como diz Danna Boyd, eles “estão verdadeiramente desempenhando para grandes audiências (por exemplo, ‘celebridades’, empresas, empresas jornalísticas, e bloggers de grande prestígio), estão conscientemente produzindo conteúdo para consumo que não requer um relacionamento verdadeiramente íntimo com as pessoas para elas o apreciarem”.

O Twitter não é bobagem, nem bolha, pode-se chamá-lo de uma comunidade de conversa, com um alto potencial viral ( por exemplo, #FollowFriday), alto impacto político ( por exemplo, #Iranelections), e alto valor como um meio para passar idéias e circular notícias. Grande parte da conversa em curso só seria bobagem sem sentido para aqueles que estão fora do espaço do Twitter, como aponta Dannah Boyd.

“Claro que ele parece estranho. Entre em qualquer círculo social típico entre pessoas que você não conhece e ele vai parecer muito estranho, especialmente se essas pessoas são demograficamente distintas de você.”

Isso dito, estou prestes a tuitar esse post. Nos vemos por lá.