Análise
18 agosto, 2009

Datafolha: nada de novo. Pura inércia.

Sérgio Abranches

Fatos novos, como ocorrências envolvendo candidatos que já estão aí, ou candidatura nova, como a de Marina Silva, podem alterar muito o cenário eleitoral nos próximos meses.

No cenário principal do Datafolha, que não incluiu a senadora Marina Silva,o que se vê é uma paradeira geral: Serra oscila nas intenções de voto, de 38% para 37%, entre maio e agosto. Nada. Dilma Roussef mantém os mesmos 16%. Ciro Gomes, fica nos mesmos 15%. Heloísa Helena, oscila de 10% para 12%. Tudo parado. Ainda ficam 20% dos votos na faixa de alienação eleitoral: entre nulos, brancos e não sabe.

Quando entra o nome de Marina Silva na Cartela, o movimento é pequeno. Ela ainda não tem recall para fazer muita diferença.

O gráfico acima mostra que com a entrada de Marina, ninguém perde. Ela tira um ponto de Ciro (15% ->14%) e dois da “alienação eleitoral” (20% -> 18%). Além da estabilidade, o quadro mostra uma eleição despolarizada, com tendência de fragmentação do voto. O índice de fragmentação do quadro sem Marina, levando em conta as “intenções válidas” de votos dá 4,22. Isso corresponde, mais ou menos, a 4 candidatos efetivos, portanto competitivos, e não apenas dois. O índice de fragmentação eleitoral do gráfico acima, com a inclusão de Marina Silva, sobre para 4,44. Um incremento de 5%, com a mexida de 3 pontos percentuais, o que indica a sensibilidade desse quadro a qualquer fato novo. A tendência é fragmentar mais o voto, aumentar a incerteza e a competitividade das eleições.

Quando sai Serra e entra Aécio Neves, Ciro cresce 7 pontos percentuais, Heloísa Helena, 5 pontos percentuais, a alienação eleitoral aumenta 6 pontos e Dilma Roussef, 2 pontos percentuais. Má notícia para a candidata petista: ela não parece não ter muito apelo no voto volante. Fica estável quando todas as demais posições se mexem.

Outra que não vê mexerem suas intenções de voto é Marina Silva. Desconhecida do público, fica nos mesmos 3%. Significa, provavelmente, que só aponta seu nome na cartela quem já a conhece e vai votar nela de qualquer jeito.

O cenário com Aécio e Marina eleva em 27% o índice de fragmentação eleitoral, de 3,4 para 4,4 indicando, claramente, espaço para quatro candidatos competitivos. Um cenário de candidatos embolados, disputando o mesmo espaço no eleitorado – caso de Aécio, Dilma e Ciro. Pode dar qualquer par no segundo turno e tem muito espaço aberto para Marina Silva progredir e encostar nos outros.

Porque o PV tem uma pesquisa que mostra Marina no patamar de Ciro Gomes e Heloísa Helena? A pesquisa do IPESPE, do cientista político Antônio Lavareda, mostra, no cenário completo, com Serra e Heloísa Helena, o seguinte resultado: Serra, 28%; Ciro, 16%; Dilma,14%; Heloísa Helena, 13%; e Marina, 10%.

No cenário sem Heloísa Helena, uma hipótese criada por declaração da ex-senadora alagoana de que apoiaria Marina, caso ela se candidatasse, o resultado é: Serra, 30%; Ciro, 22%; Marina e Dilma empatadas em 14%. Retirando Ciro Gomes do cenário, Serra passa a 37%; Marina, 24%; e Dilma, 16%. No cenário com Aécio e sem Ciro Gomes, Marina assume a liderança, com 27%; Aécio obtém 25%; Dilma, 19%.

Nos cenários com Serra, todos os números são comparáveis aos do Datafolha, exceto os de Marina Silva. No cenário com Aécio, os números de Marina e do governador mineiro, destoam dos resultados obtidos pelo Datafolha.

Não é preciso atribuir má fé à pesquisa coordenada por Lavareda para explicar essas diferenças. Fora a explicação óbvia da diferença de amostragem e a menos óbvia de pesquisa por telefone vs pesquisa direta em campo, Alon Feuerwerker, colunista do Correio Braziliense, chama atenção para o fato de que já diferenças no questionário. A pesquisa do Datafolha mostra uma cartela apenas com os nomes dos candidatos. A do IPESPE mostraria nome e atributo: governador de São Paulo, governador de Minas, ministra da Casa Civil, ex-Ministra do Meio Ambiente…) Nesse caso, a identificação mais completa do candidato equaliza mais o recall, em um contexto de eleitores mal informados, desmotivados, para os quais a eleição está longe demais.

Diferenças amostrais podem produzir desvios entre pesquisas, mas dificilmente dessa magnitude, porque a concorrência é grande, há sérios riscos de perder credibilidade e mercado, os parâmetros se aproximam bastante e é possível compará-las usando técnicas de meta-análise. Diferenças de levantamentos entre campo e telefone, podem dar desvios estatisticamente significativos. Já fiz, com Marcos Coimbra, teste nesse sentido, com dados do Vox Populi, para decidir que pesquisa usar. A conclusão é que essas diferenças significativas se dão em determinadas questões e não em outras. Tendem a aparecer em perguntas sobre opinião em relação a temas controvertidos, que podem ter um corte sócio-econômico muito claro. Acho difícil que produzam efeitos da magnitude aqui observada, em preferências eleitorais tão abstratas no momento.

A única explicação que me convence é a da diferença na apresentação dos nomes. Essa sim, pode mudar muito, especialmente em relação aos candidatos menos conhecidos, de menor recall automático. A lembrança de quem é a pessoa, acende uma luz e permite a indicação. Pode, também, superestimar a preferência por esses candidatos, por indução por isso não se utiliza esse procedimento. Essa indução é auxiliada pela mesmice representada pelo quadro com Serra e Dilma atrás de uma polarização inexistente.

O que se pode dizer das pesquisas é que são diferentes, têm prazo de validade muito curto e, ambas, indicam, que há espaço para um nome como o de Marina Silva fazer diferença e mexer muito com as posições relativas dos candidatos daqui em diante. Pode ocupar o espaço vazio criado pela indefinição dos tucanos e a estacionada de Dilma.


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