Cenário eleitoral muda rapidamente se Marina Silva sair candidata
Sérgio Abranches
Pessoas próximas à senadora Marina Silva dizem que ela já se decidiu a deixar o PT para se candidatar à presidência pelo PV.
Marina não parece mais sensível à argumentação de seus principais aliados políticos, nem aos apelos do presidente Lula, por meio de intermediários. Lula, ao que tudo indica, ainda não desistiu e tem convocado vários interlocutores com trânsito junto a Marina para conversar em Brasília.
Desde que Marina admitiu que estava considerando a proposta do PV, o Planalto e seus aliados acreanos estão abalados, em espécie de assembléia permanente, tentando encontrar uma maneira de demovê-la. É difícil, segundo um desses interlocutores, porque não se trata de oferecer uma barganha a Marina. Agora, a única maneira que antevêem é convencer Marina de que a candidatura do PT levará para a campanha uma plataforma ambiental avançada. Mas, para isso, seria preciso convencer a ministra Dilma Roussef e, mais que isso, persuadí-la de que a pauta ambiental e climática é para valer e relevante. Talvez não haja tempo.
Marina pegou o esquema eleitoral montado por Lula de surpresa. Eles esperavam um confronto Dilma x Serra, no qual Serra, simpático à visão de crescimento contida no PAC, não conseguiria montar um discurso oposicionista convincente, com uma proposta alternativa realmente contrastante. Enfrentando uma candidatura sem personalidade nítida contrastante e com o apoio de Lula, Dilma poderia ganhar.
O súbito aparecimento da possibilidade de uma candidatura Marina Silva soou o alarme no Planalto, de que o plano político do qual estavam muito seguros, seria seriamente ameaçado. A eleição não seria mais polarizada e Marina dividiria o eleitorado de Dilma,
O ex-governador do Acre, Jorge Viana, um amigo próximo de Marina e de Lula, disse no domingo ao jornalista Altino Machado que ainda estava de “quarentena” e não comentaria a decisão da senadora porque ele e o governador do Acre Binho Marques ainda teriam mais uma conversa com ela. O governador emitiu nota, na qual diz que “como amigo, companheiro e conhecedor de suas virtudes, serei sempre solidário a ela. Também reconheço sua importância na defesa de uma causa maior, uma causa do mundo. Como governador do Acre, tenho responsabilidades que não posso descuidar.”
Na semana passada, Marina Silva recebeu o título de Doutora Honoris n Universidade Federal da Bahia, com a presença do governador petista e amigo de Lula, Jaques Wagner. Perguntado se conseguiria demovê-la de deixar o PT, ele disse o seguinte, segundo Altino Machado conta no Blog da Amazônia: “tenho que ser sincero: a luta da Marina tem ganhado uma projeção cada vez maior no cenário nacional e mundial. Nós não temos a menor possibilidade de pressioná-la para mudar o que pensa e faz”.
Todos dão como certo a saída de Marina Silva do PT.
Essa convicção foi certamente influenciada pelas conversas privadas que ela vem mantendo com vários companheiros, mas também pelo que disse em reunião mais íntima, só com os amigos mais próximos e a família, relatada por Altino Machado. Nela, Marina disse: “vocês não precisam me acompanhar, fiquem no PT”.
Se todos esses sinais estiverem corretos e Marina Silva deixar o PT para iniciar negociações para montagem de uma coalizão eleitoral em apoio a sua candidatura à presidência da República, o cenário para a sucessão de Lula muda imediatamente. A candidatura de Marina Silva tem o poder de alterar radicalmente a estrutura competitiva do jogo sucessório. Marina tem carisma, ameaça a posição de Dilma Roussef a quem esse atributo falta de forma absoluta.
A biografia de Marina é o sonho de qualquer marqueteiro político. Analfabeta até os 16 anos, hoje tem curso superior. Sua infância foi consumida nos seringais, caçando e pescando, para ajudar o pai a manter uma família grande. Sua educação política foi nos movimentos sociais da Amazônia, junto aos seringueiros. Foi do sindicado dos seringueiros, junto com Chico Mendes. Ganhou o Goldman Environmental Prize, em 1996, conferido aos “heróis dos movimentos comunitários ambientais”, e o prêmio Sophie de 2009, da Noruega, “por sua coragem, sua criatividade e sua habilidade para forjar alianças, mas primeiro e principalmente, por sua batalha pela conservação da floresta Amazônica”.
A quase totalidade dos ambientalistas brasileiros, a maioria dos quais ligada PT e de eleitores de Lula, com os quais conversei nos últimos três dias, se mostrou entusiasmadíssima com sua candidatura. Muitos deles estão ansiosos para ajudá-la a organizar a mobilização de sua campanha pelas redes sociais na Internet, inspirados na campanha de Obama. O primeiro site, quando foi criado, ganhou rapidamente 2000 filiados e estagnou. Com o anúncio da possibilidade da candidatura, nesses últimos dias, já saltou para 4000 e “continua bombando”, diz uma das militantes “marinistas”.
Segundo fontes em Rio Branco, o presidente Lula chamou o ex-governador Jorge Viana e o governador Binho Marques para uma conversa em Brasília, aparentemente para discutir o que ainda pode ser feito para demovê-la. Se todos os esforços falharem, Lula terá um outro problema. A substituição de Carlos Minc, que anunciou sua saída do ministério do Meio Ambiente, em março, para disputar as eleições legislativas. O que poderia ser uma simples substituição pelo secretário-executivo, pode complicar. Com Marina candidata, Lula teria que mostrar mais apreço pelo Meio Ambiente e buscar um ambientalista acima de suspeita para o lugar. Não será fácil.
Marina também terá um duro caminho pela frente, se decidir pela candidatura. A começar pela atração de outros partidos para formar uma coalizão eleitoral (coligação) que lhe dê tempo suficiente de TV para ser competitiva. Ela tem chance de conquistar o apoio de dois ou três partidos médios da esquerda. Após assegurar o tempo de TV, ela terá que desenhar um discurso de campanha que transcenda o ambientalismo e amplie seu apelo eleitoral, com um olho nos assalariados e os pobres preocupados com salário, renda e programas sociais; e outro nos mercados financeiros e setores empresariais desconfiados com seu “esquerdismo”.
Se ela terá sucesso nesse apelo mais geral, só o tempo dirá. Mas sem mesmo anunciar sua candidatura e a saída do PT, ela agitou o partido, o Planalto e o mundo político como um tornado vindo das águas do rio Acre. Não é pouco, para começo de conversa.
Tags:2010, eleições, Lula, Marina Silva, política, PT



Hey Sérgio!
Maravilha o artigo. Semana passada estava no Sustentável 2009 quando a Marina participou do “Diálogos Impertinentes: Um mundo em colapso ou uma oportunidade de mudança”.
Lá ficou bem claro e o Dowbor destacou, o empresariado tirando o atraso e reativo e Marina Silva apontando caminhos visionários!
http://www.marinasilvapresidente.org !
Abração!
INté!