E se estivermos vivendo o limiar de mudanças e rupturas que nos levarão a um plano desconhecido?
Sérgio Abranches
E se estivermos vivendo, hoje, no limiar de tremendas mudanças e rupturas que levarão a humanidade a evoluir mais rapidamente do que jamais se imaginou até agora, ao longo do século XXI? E se tivermos diante de nós um ponto de ruptura na história da humanidade?
O matemático e autor de ficção científica, Vernor Vinge, escreveu, em 1993, que a aceleração do progresso tecnológico nos trouxe “ao limiar de mudanças comparáveis à ascensão da vida humana na terra”. Vinge, um dos primeiros a imaginar o ciberespaço, escreveu em um ensaio para a NASA em 93, posteriormente publicado na Whole Earth Review, que a causa dessa mudança avassaladora seria a “criação iminente pela tecnologia de entidades com inteligência superior à humana”. Ele chamou esse ponto de ruptura com o padrão tecnológico vigente de singularidade.
Singularidade em física ou astronomia, é o ponto em que as leis da física, tais como as conhecemos, deixam de funcionar. A maior singularidade física, me conta o meu amigo Ulisses Leitão, físico da pesada, é o momento inicial do Big Bang: “a densidade seria tão grande (tendendo a infinito…) que a física atual não conseguiria descrever seu comportamento físico. Seria preciso, diz ele, “ter uma teoria que fundisse todas as forças fundamentais da natureza: Eletromagnética, Nuclear Fraca e Forte e Gravitação; que englobasse a Física Quântica (pequenas dimensões), Relativística (altas energias), a Gravitação Universal (grandes distâncias)”. Essa teoria “ainda não existe, há mais de 60 anos que a estamos buscando”, diz Ulisses. Se a busca é possível, no longo prazo, a teoria é possível. Esse é meu o ponto.
Vinge imagina que a singularidade “social” será um marco a partir do qual mudanças imprevisíveis ocorrerão, como explicou John Hind, em um artigo de 2002, para o jornal inglês Guardian. Na sua apresentação original da singularidade, Vernor Vinge disse que quando “uma inteligência maior que a humana comandar o progresso, esse progresso será muito mais rápido”. Ele vai ainda mais longe: “Não há razão para que o próprio progresso não possa envolver a criação de entidades ainda mais inteligentes, em uma escala de tempo ainda mais curta”. Essa é das formas mais criativas possíveis de se pensar sobre o futuro.
Vislumbrar surpresas inevitáveis que podemos prever sem jamais saber previamente quais serão suas consequências para nós, como Peter Schwartz propõe em seu livro de 2003, Inevitable Surprises: Thinking Ahead in a Time of Turbulence, é uma outra forma de pensamento criativo. São dois princípios diferentes e válidos de se escrever uma “história” para o futuro, ousadamente visionária e tecnicamente consistente.
Surpresas inevitáveis que podemos antecipar, como na hipótese de Peter Schwartz, não contradizem a possibilidade de que mergulhemos na singularidade, em um turbilhão de mudanças vertiginosas. Um nos fala de mudanças que podemos antecipar, ou prever, mas cujas consequências não podemos conhecer previamente. O outro, trata de um ponto de ruptura a partir do qual a mudança se acelera para além da imaginação e produz um salto quântico na forma da existência humana que conhecemos até agora.
A diferença é que uma forma de pensar aponta para a possibilidade de anteciparmos as mudanças que podem criar os meios para a emergência da singularidade. A outra nos convida a tentar imaginar as consequências mais amplas desses eventos. A olhar para aquele ponto distante, nos diz, Vinge, “a partir do qual nossos velhos modelos têm que ser descartados e domina uma nova realidade”. Do ponto de vista humano essa mudança significará “abandonar todas as regras anteriores, talvez em um piscar de olhos, uma disparada exponencial para além de qualquer controle”.
Dá para imaginar toda a controvérsia que essa idéia provocou nos meios acadêmicos e intelectuais há mais de 15 anos? A reação à idéia de uma inteligência supra-humana produzida pela ciência humana foi generalizada. Os seguidores também se multiplicaram. O cientista social Robin Hanson colecionou vários comentários à singularidade de Vinge, no auge da polêmica. Um deles tem implicação direta para toda essa questão do olhar para o futuro: nada é certo, nós estamos sempre lidando com hipóteses. Nick Bostrom, diretor do Future of Humanity Institute disse que ele não via “a singularidade como uma certeza, apenas um dos cenários mais prováveis”.
Bom, a idéia vem gerando controvérsia, debates e reflexões há 23 anos, desde que Vinge a usou, de forma ficcional e ainda meio difusa, pela primeira vez, no romance de ficção científica chamado Marooned in Real Time. Na estória, uma das personagens diz, em um determinado momento: “Foi uma Singularidade, um ponto em que a extrapolação se rompe e novos modelos têm que ser aplicados. E esses novos modelos estão além de nossa inteligência”. É um ponto de ruptura, uma mudança paradigmática, que está além dos conceitos a que estamos acostumados. Mais ou menos como a passagem da Idade Média para o Iluminismo.
A controvérsia é fácil de entender. Estamos falando de duas inquietantes ordens de desconhecidos e é fácil de se lidar com nenhuma das duas. O futuro é uma idéia interessante até o ponto em que nos encontramos com nossa inelutável finitude. Nós temos que nos acomodar à idéia de olharmos para além de nós mesmos e dos que amamos. A singularidade radicaliza essa visão. Ela aponta para além do domínio humano sobre o universo. Nada confortável. Ray Kurzweil e vários outros levaram essa idéia ainda mais longe para o terreno do trans-humanismo. Vai além da minha visão, ou para outra direção.
Stewart Brand diz algo em seu livro The Clock of the Long Now, que vale relembrar neste ponto: o tempo é assimétrico para nós. Podemos ver o passado – e continuamos a debater nosso passado, eu adicionaria – mas não podemos mudá-lo. Não podemos ver o futuro, mas podemos influenciá-lo. Ele não quer dizer com isto que podemos controlar o desenrolar de eventos futuros. Não se trata de controlar o futuro, mas de lhe dar, isto é, às futuras gerações, os meios para seu bem viver.
Não é precisamente isso que estamos tentando fazer com a mudança climática? Nós sabemos, ou a maioria de nós sabe, que não podemos controlar as leis da natureza. Não há muito que possamos fazer a respeito do volume de gases de efeito estufa que já emitimos até agora e com o aquecimento global que já compramos com nossas emissões de carbono, pelo menos com os meios que temos hoje. Mas podemos desenvolver instrumentos pra adaptar nossas sociedades a esses eventos muito prováveis e os meios de governança necessários para reduzir emissões futuras e evitar os piores cenários.
Nenhum desses desafios tem a ver com certezas, conhecimento para além de qualquer dúvida. As certezas sempre caem no terreno da nossa finitude. Esses desafios dizem respeito a incertezas, a riscos, chances nas quais não deveríamos apostar. Nesse caso, podemos estimar probabilidades e fazer especulações educadas sobre prováveis consequências.
Para fazer isso temos que olhar para o futuro. E olhar o futuro com arte, criatividade, imaginação e ousadia ajuda um bocado. É o ponto extraordinário onde ciência e arte se dão as mãos verdadeiramente. Pior que revelar coisas boas ou más que o futuro guarda para nós e nossos ascendentes, seria tornar nossas visões desse futuro óbvias e opacas.
Eu prefiro, no que diz respeito à mudança climática, ser alertado de riscos maiores do que provavelmente ocorrerá, a ser informado de riscos que estão aquém dos eventos mais prováveis. Quanto à história futura desse século: prefiro imaginar que a humanidade conseguirá superar suas fraquezas, crueldade e insensibilidade. Aprenderá a ter solidariedade com os que lhe são diferentes. Irá domesticar a propensão dos poderosos à opressão e dos ricos a acumular mais riqueza do que podem administrar. A imaginar que será tudo igual em 2100.
Há uma ruptura histórica no horizonte de nosso futuro. Pode nada ter com a singularidade de Vinge. Só podemos estar certos de uma coisa: a mudança será avassaladora e nossos modelos terão que ser descartados. Uma nova realidade reinará.
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