A quem beneficia a cultura da complacência e a despolitização?
O Senado e a Câmara sempre tiveram cenas deprimentes de troca de insultos, pugilato e violência. A coisa fica grave é quando isso vira instrumento de despolitização e alienação.
Tem uma razão para isso e é a mesma que aparece diuturnamente nas instituições brasileiras. No Brasil, as fronteiras entre público e privado sempre foram imprecisas: no Executivo, Legislativo e Judiciário.
No caso da política, além do nepotismo, da corrupção e da apropriação pessoal indébita de recursos, privilégios e prerrogativas, essa imprecisão tem uma função primordial e reacionária, retrógrada. Ela despolitiza o que é para ser objeto de discussão e ação política, personaliza, o que deveria ser objeto de confronto programático, ideológico ou ético. A censura se transforma em insulto, a solução, vira assunto pessoal – processa, não processa, afasta, não afasta – e, dessa forma, a política se transmuta em um baile privado de vaidades e cafajestadas. Uma catarse, onde todos se transformam em coronéis, em donatários de fatias do espaço público, que usam como recurso para promover seus interesses e impulsos particulares. O teatro público vira uma farra privada, para a qual a platéia – o povo, a cidadania – não é convidada, mas tudo se faz em seu nome. Se fosse convidada, talvez não fosse. Desencantada pela frustrante repetição do mesmo enredo, vai se deixando dominar pelo cinismo, pelo “vou cuidar do meu, porque aquilo ali não tem jeito”. Só vão os aparelhados e cooptados de sempre, de todos os matizes, como claques, não como participantes. Vaiam, aplaudem e insultam da mesma forma que seus mentores em plenário. Nada mais protagonizam. À esquerda e à direita, estão todos se tornando uma espécie de exército de reserva, parte da lumpen-política que se vai alastrando.
Eu fico espantado ao ver gente séria e de bons propósitos desmerecendo ou naturalizando o que se passa. Nada disso é “natural”, nada é aceitável ou tolerável. A apologia da complacência está produzindo uma anomia coletiva no país, um desregramento generalizado, a perda de qualquer referência ética, ideológica e política. Não é a existência de clientelismo ou corrupção que é grave. Isso tem em todo parlamento. O grave são a impunidade sistemática e as formas cínicas de sua justificação: “sempre foi assim”, “todo mundo faz”, “fulano fez pior”, “precisamos é trabalhar”. Tudo é rigorosamente igual ao “rouba, mas faz” e ao “estupra, mas não mata”. Essa é a expressão da cultura política dominante.
A quem serve a desmobilização, a apologia da complacência? Ao predomínio do coronelismo privatista, à cooptação política, que vai corrompendo valores, princípios e convicções ideológicas. Essa cultura da justificação e da desqualificação, neutraliza a capacidade política da sociedade civil. A despolitização política corresponde à desorganização da sociedade civil. É antagônica a qualquer possibilidade de estabelecer uma vida política ativa, de responsabilidades cívicas, ideal iluminista desde que Maquiavel o inscreveu ao final – pouquíssimo lido – de seu livro muito mais citado do que compreendido. Do reino do civismo por ele proposto, ninguém sabe, ninguém lembra, todos só se lembram do “maquiavelismo”. Mas Maquiavel desejava mesmo era mostrar que a política exige “virtú”, virtude cívica, mas se livrar do que ficou conhecido como maquiavelismo. A mobilização cívica e a politização do espaço público são o anticorpo para essa política da manipulação, da enganação, da corrupção e da violência.
A complacência é parte de um processo coletivo de alienação e está associada à perda de qualidade social, política, cívica e moral, da sociedade brasileira. O processo de construção democrático é recente. Tem menos de 25 anos. Começou com muito entusiasmo cívico e foi decaindo. Não usamos na política o mesmo empenho que usamos para enfrentar os problemas macroeconômicos.
Fomos deixando os desafios, mantendo a tarefa incompleta, deixando que as rivalidades impensadas ou propositais fossem contaminando o processo político e o transformando em questão pessoal. Basta ver por aí as implicâncias com Serra, com Dilma, com Lula, com FHC. Nada é político, nada é expressão de projetos, convicções, disputa pensada de rumos. Tudo é picuinha, desqualificação, censura, insulto.
Uma cultura tão anti-democrática e danosa, quanto foi o fascismo. Essa tolerância, sempre em nome de alguma coisa “mais importante”, com o intolerável mina a democracia, é tão danosa para ela, quanto um general com seu AI-5. A desqualificação do politicamente discordante, mais que só personalizar o debate político, despolitizando-o, é uma forma de censura como qualquer outra. A tentativa de intimidade pelo insulto, pela intriga, pela difamação, é tão anti-democrática, quanto a censura explícita e institucionaliza. Aliás, diga-se que essa prática da desqualificação, do deboche e da infâmia, vem se institucionalizando com sucesso em vários fóruns.
Quem se aproveita disso? Os neo-coronéis, os oportunistas, os cafajestes de todos os matizes e atividades. Isso fortalece um sistema de dominação privada, que transforma o processo político numa empreitada; o estado em um mosaico de sesmarias ou donatarias; a política em assunto pessoal; o Tesouro, numa espécie de saco de esmolas, no qual todo mundo pode meter a mão.
A escola está abandonada, o professor mal pago e mal treinado, a saúde em estado terminal, empilhada em um corredor insalubre, mas vão lá nas contas públicas ver quanto se gasta em saúde e educação por ano, per capita no Brasil. Não é pouco. Mas sempre falta. É certo que a maior parte do dinheiro público ainda vai, como sempre foi, para subsidiar a formação privada de capital, para os empreiteiros, para financiar os barões da indústria e os coronéis da agricultura. Os que nunca pagam suas dívidas subsidiadas com os bancos públicos, os que nunca podem competir, porque lhes falta apoio, os que nunca podem redistribuir, porque estão sempre sob ameaça. Os ricos, no Brasil, são os frágeis, os beneficiários do assistencialismo público.
Essa política despolitizada só serve à mesma elite, que se perpetua, se recompondo pela cooptação, compra ou corrupção dos que poderiam ameaçá-la. Quando parlamentares se acusam de coronelismo e cangaço, sob a assistência passiva de outros parlamentares é uma forma de escapar da política e suas consequências, de vetar a possibilidade de intervenção institucional saneadora. Quando o presidente toma o lado de um coronel – e não foi só o Lula – por conveniência política pessoal, desconsiderando as implicações institucionais, abdica do papel transformador que o presidente pode e deve ter. Todos viram coronéis. Tornam-se parceiros do mesmo conluio, da mesma coalizão pela impunidade, apostando no impasse por conveniência, no esquecimento do povo, para perpetuar um sistema político que só atende aos interesses deles mesmos e dos grupos, facções e organizações que os apóiam.
Tags:Congresso, coronelismo, corrupção, democracia, política



Sérgio, e então, como ficamos? Tudo o que você disse é absolutamente verdade: concordo com cada letra e cada vírgula do seu texto, mas onde está a saída? Não pode ser o aeroporto de Guarulhos, ou o Galeão, como se dizia antigamente…
Se voltar os olhos para nossa política externa, poderia complementar: estamos assistindo um processo de “chavinização” do Brasil, sob o comando de nosso líder supremo, Tchê Lulla, que afaga Evo Morales, Hugo Chavez e pede explicações a Uribes sem ler os jornais ou se informar direito do que acontece ao seu redor. E agora, em plena crise do senado (assim, com minúscula mesmo), dá mais uma rádio a Renan Calheiros…
A longo prazo, só vejo investimento na educação como solução para um ou duas gerações à frente, mas quem vai investir neste prazo? É bem mais que um trimestre, que é o horizonte para qualquer empresa hoje em dia, e mais também que 4 anos, o horizonte político normal.
Onde estão os ‘cara-pintadas’, onde estão os ‘diretas já’? Em casa, contando o vil metal?
A verdade é que hoje a única força política que coloca gente nas ruas a qualquer momento é o MST, e isso me assusta!