O risco de soluções de geoengenharia para o aquecimento pode ser provocar mais mudança climática
“À medida que os riscos de mudança climática e as dificuldades de reduzirmos efetivamente as emissões de gases de efeito estufa se tornam mais óbvios, soluções potenciais pela geoengenharia são cada vez mais amplamente discutidas”.
Sérgio Abranches
Grabiele Hegerl do Grant Institute e Susan Solomon do Earth System Research Laboratory na National Oceanic and Atmospheric Administration discutem alguns dos riscos de manipular o sistema climático ao tentar mitigar o aquecimento global, na seção Perspectives publicada ontem na revista Science.
Seu ponto principal é que “os impactos da mudança climática são determinados não somente por mudanças na temperatura, mas também por outros aspectos do sistema climático, como a precipitação e os extremos climáticos.” Elas argumentam que se os estudos de geoengenharia focarem demais no aquecimento “não serão capazes de avaliar apropriadamente riscos críticos associados a essas possíveis curas”.
As autoras usam como exemplo, “tentativas de limitar o aquecimento reduzindo as radiações em ondas curtas” que chegam à terra. Reduzir essas radiações em ondas curtas levaria a uma queda nas temperaturas, dizem. A precipitação reage mais fortemente às reduções nas radiações em ondas curtas que chegam, como acontece em erupções vulcânicas ou na engenharia climática nas ondas curtas, do que à redução nas radiações em onda longa, que saem da terra e estão associadas ao forçamento por gases de efeito estufa, explicam. O risco resultante seria de maiores mudanças na precipitação. No caso, o risco seria de secas extremas.
Elas concluem que “a mudança climática tem a ver com muito mais fatores do que a mudança na temperatura e usar apenas a temperatura como uma aproximação para seus efeitos representa um risco inaceitável para a saúde de nossa sociedade e para o próprio planeta”.
Nós vivemos uma era de mega riscos. A nossa é, de fato, uma sociedade de risco. Cada passo para enfrentar o desafio do século tem que dar conta de todo o risco sistêmico envolvido. Não podemos admitir qualquer simplificação. Ultrapassamos os riscos individual e societário, que não desapareceram, ao contrário, aumentaram, somando a eles o risco planetário.
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