Opinião
31 julho, 2009

Alongar a visão é essencial para encarar os desafios do Século XXI

Sérgio Abranches

Pensar sobre o futuro nada tem de fácil. É parecido com os jogos de estratégia e RPG (JEP – jogos de encenação de papéis) nos quais se avança por um labirinto de obstáculos e ciladas para atingir estágios sempre mais avançados e difíceis, até alcançar o objetivo final.

Ao alongar o olhar para além de nosso tempo presente, o desafio é imaginar futuros alternativos plausíveis e diferentes. É um exercício que busca atingir níveis crescentes de abstração e afastamento da experiência presente, para chegar a hipóteses concretas sobre um novo estado do mundo.

Pode-se fazer isso tanto usando métodos quantitativos, quanto por meio de métodos qualitativos de redação de cenários, ou histórias futuras. Os métodos quantitativos são ainda muito lineares para o meu gosto. Prefiro usar técnicas mais qualitativas de redação de cenários, que podem ser tão efetivas como as curvas de uma simulação.

De qualquer forma, interpretar os resultados de um modelo de simulação – no caso eu prefiro as análises de sistemas, como o Studio 8 (Powersim), para PCs, Stella ou iThink, para Macintosh (meu caso) – ou retirar intuições de um cenário, é um quebra-cabeças.

Pensar o futuro requer uma esquisita mistura de audácia e disciplina. Audácia para ousar ser radicalmente criativo e se sentir inteiramente livre para usar toda a inteligência, informação e conhecimento disponíveis para refletir sobre futuros alternativos. Disciplina para não deixar o passado contaminar essas visões de futuro. Tanto o passado como o presente devem ser usados com sabedoria e cuidado para dar forma ao contexto das estórias futuras, mas não podem dominá-las. O maior perigo está na tentação do pensamento linear, que projeta para o futuro, imutáveis, nossas experiências presentes e nosso viés, o que Ray Kurzweil chama “visão intuitiva linear”, à qual ele opõe a “visão histórica exponencial”.

Vamos ser claros: o presente escreve linearmente um futuro que é apenas mais do mesmo do que já vivemos. Sem surpresas, sem mudanças, sem sobressaltos. Em outras palavras, um cenário irrealista, que muito provavelmente jamais se materializará. Já existem forças emergentes, muitas ainda latentes, que com toda probabilidade mudarão o curso da história futura para longe desse cenário de “mais do mesmo”, um futuro que não será. As contradições derivadas do esforço de manter o status quo geram um ambiente turbulento, cíclico e volátil, no qual essas forças tendem a se revelar e ganhar força. Ao mesmo tempo, o ambiente vai se tornando hostil às forças poentes que sustentam a ordem presente de coisas.

Prefiro um cenário surreal, à mesmice de achar que daqui a 30 anos seremos uma projeção linear ampliada do que somos hoje. Já pensou que pesadelo? Um brasilzão como o de hoje, grandão, mais rico, mas no fundo igualzinho? Isso em 2039? Ou seja, um futuro pelo qual não devemos gastar nossas energias, porque não é plausível. Certamente haverá mudanças. As surpresas serão a norma. O mundo – o Brasil também – será muito diferente do que é hoje daqui a 30 anos, como hoje somos muito diferentes do que éramos há 30 anos.

Dê uma olhada à sua volta, nas coisas que você usa, e pense em 1979. Nada do que hoje é parte do seu cotidiano pessoal e profissional, em termos de tecnologia, conhecimento, política, economia, sociedade, existia em 1979. Certamente, uma boa parte dos que me lêem, nem havia nascido. Quer mudança mais radical do que entre ser e não ser? Pensem em todas as diferenças – positivas e negativas – entre ter 20 ou 50 anos de idade.

Além disso, nesse mundo de aquecimento global e mudança climática, mais do mesmo é menos provável do que uma estória feliz de uma sociedade de baixo carbono, ou um cenário de horror no qual o mundo escolheu se fritar e chegar ao fim de sua história.

O perigoso hábito de projetar o presente no futuro não se confunde com o reconhecimento da força política, social e cultural do status quo. Nós construímos um mundo não para mudar, mas para expandir sobre o que já temos. Nossas instituições foram desenhadas para evitar que mudemos, que nos tornemos radicalmente diferentes do que somos. Estão ajustadas apenas para que nos tornemos mais eficientes, construindo sobre o que já fazemos. Como dizem os franceses com sabedoria, a regra embutida nas instituições é: “plus ça change, plus c’est la même chose”. Por mais que mude, mais continua sendo a mesma coisa. Mas no longo prazo, contudo, o mundo muda, não interessa que forças operam para evitar que mude.

Há outra ameaça para quem queira pensar sobre o futuro: visão curta. Essa sociedade frenética em que vivemos, com sobrecarga de notícias, informação, descobertas científicas, novos produtos, e tudo o mais, nos empurra para um ritmo cada vez mais acelerado no nosso cotidiano. Amanhã vai ser um outro dia, muito parecido com ontem, e isso deve ser verdade sobre o futuro. Mas o futuro não será como ontem, hoje, ou amanhã. Vai ser algo muito diferente. O futuro está em outro plano de tempo em relação aos eventos diários que experimentamos, embora vá ser construído pela complexa interação de muitos deles, no âmbito macrosocial. Olhe para trás 30 anos, o mundo era tão diferente do de hoje. São tantas as coisas que temos, fazemos, usamos, com as quais nem sonhávamos a poucos anos atrás. A única coisa da qual podemos ter certeza é que haverá mudança, a vida encontrará um caminho, muito provavelmente sem precedentes e imprevisto pela maioria.

Um grupo de pessoas voltadas para a análise do futuro se preocupava tanto com essa síndrome da visão curta, que criou uma fundação dedicada a promover o pensamento de longo prazo. Eu diria muito longo prazo, porque a visão da Long Now Foundation (Fundação do Longo Agora ou do Longo Presente) “é promover criativamente responsabilidade no contexto dos próximos 10.000 anos”, apresentando como contraponto à mentalidade que valoriza o rápido e ruim, a mentalidade que valoriza a reflexão e a qualidade. Entre os fundadores da “Longo Presente” estão dois conhecidos autores e consultores profissionais de planejamento com cenários, Stewart Brand e Peter Schwartz. Não é uma fundação de “alternativos”. Eles têm patrocinado alguns dos mais criativos seminários que eu tenho visto por aí. Só para dar o gostinho da coisa, um dos mais recentes foi sobre “Cultivado Organicamente e Modificado Geneticamente”, com Pamela Ronald, chefe de genética vegetal da Universidade da Califórnia, em Davis, e Raoul Adamchak, professor de cultivo orgânico na mesma universidade. Os dois são casados.

Para alongar a visão, não é preciso tentar enxergar daqui a 10.000 anos, basta nos abrirmos para as novidades que estão pipocando todo dia e tentar intuir as que virão em seguida. Pode parecer meio lugar-comum, mas o futuro é realmente cheio de surpresas, boas e más, e, na maior parte das vezes, surpresas inevitáveis. Peter Schwartz escreveu em seu livro de 2003, Inevitable Surprises: Thinking Ahead in a Time of Turbulence, que a “surpresa é a regra”, particularmente depois que as revoluções científicas e tecnológicas aumentaram tremendamente a complexidade e a turbulência de nossas vidas. Ele prevê que haverá mais surpresas, seremos capazes de lidar com elas, e percebermos muitas delas com antecedência. Não podemos saber com antecedência quais serão suas consequências ou como elas nos afetarão, mas sabemos que teremos muitas surpresas pela frente, como colapsos econômicos, por exemplo. Lembrem-se que o livro é de 2003.

Mudanças tecnológicas de longo alcance aceleraram nosso biorritmo e aumentaram exponencialmente nosso poder de manipular os nossos ambientes natural e construído. Nós estamos vivendo agora os primeiros momentos de uma nova revolução científica, que promoverá a convergência de áreas da ciência e da tecnologia que avançaram muito e já estão produzindo ativamente novos conhecimentos e novas aplicações. Mas, quando estiverem em plena e integrada interação, produzirão resultados muito mais amplos do que a simples soma das partes. Uma dessas vertentes caminha para a fusão da tecnologia digital, da nanotecnologia, da biotecnologia, das biociências e da neurociência que pode nos levar a uma nova tecno-era, cheia de assombro, potencial e risco.

A amplitude das mudanças que vêm por aí pode ser tanta que talvez não consigamos mais perceber as surpresas inevitáveis com antecedência, nem construir boas hipóteses sobre “como a maioria delas vai se desenrolar”, como disse Peter Schwartz. Podemos estar entrando em uma dimensão superior, desconhecida e ainda inconcebível do futuro.


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