Carne fresca como peixe fresco
Fresh fish, good food. Rooms available with female attendants: peixe fresco, boa comida e quartos disponíveis com acompanhantes femininas, dizia, em mau inglês, a placa pregada na parede do restaurante do barco.
Ela teria me espantado, não estivesse eu esperando algo parecido. Não era um barco comum, mas um dos maiores que atendem a turistas no Pantanal, com 28 camarotes, usualmente utilizado para transportar pescadores rio Paraguai acima, saindo do porto de Corumbá.

Era de manhãzinha, o sol apenas nascia, e eu normalmente estaria no deck, tirando fotos da espetacular manhã nascente no Pantanal. Mas eu havia convidado Estela Scandola, do Instituto Brasileiro de Inovações pró-Sociedade Saudável – IBISS para tomarmos o café da manhã juntos, no restaurante do barco, antes que os eventos do dia começassem, para que pudéssemos conversar. E enquanto conversamos, por uma hora e meia, o que aquela placa realmente significava ia ficando cada vez mais claro para mim. A razão pela qual eu a convidei foi sua palestra, na tarde anterior, sobre prostituição nas águas do Pantanal.

Estávamos participando do encontro anual que a Fundação Avina promove sobre temas sócio-ambientais. A Avina havia fretado o barco por cinco dias e havia várias reuniões e atividades ao longo da manhã e da tarde, mas programados de forma que também pudéssemos apreciar a vista e a espantosa beleza natural e variedade de pássaros do Pantanal, enquanto subíamos vagarosamente o rio. Uma viagem de quatro dias rio acima, para atravessar boa parte do Parque Nacional do Pantanal, até próximo à fronteira com a Bolívia. Um dia rio abaixo, de volta a Corumbá. Após minha palestra, na manhã do primeiro dia, eu normalmente ficava no deck, olhando a paisagem, tirando fotos e ouvindo música no meu iPod. Mas o inesperado tema da palestra de Estela chamou minha atenção e decidi ouví-la. Não podia ter acertado mais. Foi uma surpresa chocante aprender sobre a escala da prostituição feminina juvenil, o grau de impunidade de todos os envolvidos e a participação de várias agências de turismo e operadores de barcos.
Ouvindo sua narrativa, entendi porque um garoto me abordara oferecendo camisinha quando embarcava. Na hora, achei uma forma para lá de inconveniente para um menino ganhar uns trocados. E achei estranho, porque o barco estava fretado para reuniões de trabalho e não para turismo, mas ele não precisava saber disso. Estava acostumado a outro tipo de viajantes.
Quando Estela começou a explicar a uma platéia de lideranças de ONG`s, especialistas e alguns jornalistas, como se dava o processo de aliciamento e tráfico de meninas e meninos, com objetivo de exploração sexual, era como se até os pássaros do Pantanal se calassem. Dava para ouvir apenas o motor a diesel do barco e seu apaixonado, mas objetivo relato sobre como garotas pantaneiras adolescentes são atraídas para excursões de pesas ou turismo, apenas para descobrir que o preço será entreter os passageiros sexualmente.
Um grande número de pessoas, na maioria homens adultos, entre seus 40 e 50 anos, vai ao Pantanal supostamente para ver a natureza, os animais ou para pescar, na verdade está em busca de prazeres sexuais com as jovens locais: brancas, negras e indígenas; brasileiras, paraguaias e bolivianas. Isso explicava a geladeira doméstica com 48 latinhas de cerveja em cada camarote e a grande Jacuzzi perto do bar do deck. Depois do encontro, perguntei a um dos barmen que ouvia atentamente à palestra de Estela se ela galava a verdade. Ele me disse que podia ser até pior. Ela sabia pela pesquisa e pelas entrevistas com as meninas. Ele era testemunha ocular das orgias. Disse que a Jacuzzi era usada principalmente para sexo grupal à noite. Profissionais de classe média bem sucedidos, acima do peso, são os principais clientes, pagando em torno de R$ 1500,00-R$ 2000,00 a diária, extras à parte. Dos extras, o principal eram as garotas e a bebida.
Apesar do trabalho com as prostitutas, desenvolvido por Estela e pelo Ibiss, elas não têm alternativa e não vêem a exploração que sofrem como agressão. Uma delas, quando é escalada para um programa, procura a ONG, para pedir um pacote de camisinha, Estela me contou. Porque nem isso os comerciantes de carne fresca de gente pantaneira fornecem. Perguntadas sobre as agressões que estão sofrendo, dizem que não foram agredidas, não. “Isso, não. Graças a Deus nunca sofri violência”, respondeu uma delas em entrevista, apesar de trabalhar com todos os documentos pessoais retidos pelo agenciador e dividindo com mais oito meninas um quarto de 3 x 2 metros. Violência, para elas, é porrada. O resto é mole. Muitas dizem que têm medo de serem estranguladas, durante o sexo.

São inúmeras as histórias de cárcere privado. De menina que entra iludida no programa, achando que está sendo convidada para um passeio, para ver as maravilhas de sua terra, que não conhecem. Quando descobre que tem que servir sexualmente, às vezes a vários homens, alternada ou simultaneamente, e recusa, fica fechada em um cubículo por toda a viagem, no deck inferior do barco, junto à cozinha, comendo os restos que a tripulação, por generosidade, lhe sirva.
Essa descrição da brutal ecologia da violência sexual em que se transformou boa parte do ecoturismo pantaneiro chocou a todos, mesmos os mais experimentados a ver faces cruéis da pobreza e da devastação. A cada novo slide ou frase reveladora, o barman assentia com a cabeça, os olhos estatelados de perplexidade ao ver seu dia-a-dia revelado tão cruamente como expressão de agressão sexual, tráfico de pessoas e violentação dos mais elementares direitos da pessoa humana.
Ele me disse, mais tarde aquela noite, que sabia que o que seus patrões fazia era errado e revoltante, mas não tinha idéia de que era tão degradante e abusivo quanto Estela Scandola mostrara com tanta clareza naquela tarde. Ele não tinha certeza se seria capaz de continuar com aquele trabalho. Mas disse também que ganhava muito mais dinheiro com as gorjetas naquele barco do que jamais conseguiria em um bar ou restaurante “normais” de Corumbá.

A paisagem exuberante, que desfilava pelas janelas do restaurante do barco, fazia do relato de Estela um contraponto ainda mais inquietante. Mas aquela beleza toda tinha também o pouco de brilho falso: aquele vermelho escandaloso do por do sol denunciava o excesso de fumaça na atmosfera, por causa das queimadas.Era a temporada seca. Todas as noites a bordo do barco, cortando vagarosamente aquelas vias caprichosas e serpenteantes rio acima, podíamos ver o brilho das queimadas no horizonte. Prostituição e violência sexual, somadas à poluição, desmatamento e queimadas fazem parte da economia pantaneira. Por trás do deslumbramento paisagístico e ecológico esconde-se um espetáculo deprimente de degradação e desrespeito ao ser humano e à natureza.
Não há como descrever a beleza e a surpresa que aquela natureza generosamente oferece aos olhos de quem lá está. É preciso ver para crer, ver para entender. Ouvir a bicharada; sentir o calor crescente ao longo do dia do sol tropical; ver como a água que vem do planalto central negocia seu caminho pela vegetação para formar o maior vale pantanoso do mundo e para se ter uma idéia do que o Pantanal representa em termos de paisagem, biodiversidade. Ele é único. Um alagado sem águas próprias. Um ecossistema que faz a transição entre a Amazônia e o Cerrado (Veja o áudioslideshow O Cerrado e suas Veredas em Perigo). Vive das águas que lhe são ofertadas pelos rios e chuvas que correm do altiplano para aquela depressão impermeável que conhecemos, formando uma imensa rede de bolsões argilosos, ora largos, ora finos, que produzem um surpreendente labirinto de veias aquosas. A erosão e degradação das cabeceiras que servem ao Pantanal e o desmatamento de seus cerrados para a pecuária e ou cana de açúcar estão ameaçando sua sobrevivência. Ele é lindo, frágil e perecível, como suas meninas, forçadas ao sexo com turistas locais e estrangeiros, enquanto cruzam suas águas.

A sorte do Pantanal será a mesma das suas meninas. Se uma não for protegida, o outro tampouco será. Ambos precisam de proteção, fontes legais de renda e boa governança. O pescador que lá vai para pescar nas águas turvas do tráfico de sexo, jamais respeitará as águas limpas de seus rios e lagoas. Nem obedecerá às regras da pesca ecológica e esportiva.

Quando escrevi a primeira versão dessa matéria, há cinco anos, para O Eco (link para O Eco) ainda havia esperança de que a corrupção, o desprezo pelos verdadeiramente pobres, a proteção de crianças adolescentes e mulheres teriam progresso real no Brasil. Desde então, houve progresso marginal em algumas áreas, piora em outras. A prostituição juvenil no Pantanal, contudo, permaneceu basicamente na mesma.
O ex-campeão olímpico, corredor, Zequinha Barbosa, e seu agente fora condenados por um Juiz de Campo Grande por exploração sexual de menores, após terem sido flagrados fazendo sexo com meninas de 15 e 14 anos respectivamente. Campo Grande não é no Pantanal, mas é a capital do Mato Grosso do Sul. O Pantanal se dispõe entre os dois estados: Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os dois foram sentenciados a cumprir penas de 5 e 7 anos, em novembro de 2004, rigorosamente de acordo com a lei. Em dezembro de 2005, o Tribunal de Justiça do Estado revogou a sentença original, considerando-os inocentes do crime de exploração sexual de menores, porque as jovens seriam “garotas de programa”, já que haviam sido abordadas em um ponto de ônibus e haviam sido pagas, R$ 60,00 e R$ 80,00 pelo “programa”. O tribunal aceitou o argumento da defesa e os desembargadores simplesmente desconsideraram o fato de que as meninas eram menores de idade. A lei que protege crianças e adolescentes no Brasil é muito clara e define com crime submeter menores e adolescentes à exploração sexual ou à prostituição, punido com sentença de 4 a 10 anos de prisão. Em junho deste ano de 2009, o Superior Tribunal de Justiça confirmou essa decisão, causando indignação entre promotores e juízes que lidam com infância e juventude, porque na prática a decisão derruba a lei que protege essas crianças e jovens da violência econômica, física e sexual.
Noite de quinta-feira, 27 de março de 2009, uma operação das polícias civil e militar do estado, do Ministério Público estadual e do Conselho Tutelar fechou uma boate em Porto Murtinho, nas margens do rio Paraguai, próximo à fronteira Brasil-Paraguai, na qual encontraram 50 prostitutas, várias delas adolescentes. Uma delas, uma menina de 15 anos, havia sido levada a trabalhar na casa pela irmã, a mando da família. A irmã também já havia trabalhado lá, quando era menor. O dono do estabelecimento, já havia feito parte do Conselho Municipal para Promoção do Turismo. O turismo, especialmente para pesca esportiva, é uma das principais fontes de renda de Porto Murtinho.
Two days earlier, on March 25, the Navy ship Potengi left the port of Ladário on the left bank of the Paraguay River within the neighborhood of Corumbá, carrying the so-called “Citizenship Expedition.” The aim of the group was to give social assistance to the populations living on the riverbanks. Only 75 km from Corumbá’s commercial center, in the district of Albuquerque, another target site for fishing tourists, they found several places with teen prostitutes. The head of the expedition, Federal Judge Raquel Corniglian, was particularly shocked to find a 50-year old, upper-middle class, married guy with a 14-year old girl in a motel around noon. She told the online news site “Capital do Pantanal” (link http://www.capitaldopantanal.com.br/portal/home.php ) that most of the girls were locals making easy money from the outside fishing tourists. Throughout their journey, the group found teenaged prostitutes in bars on the riverbanks “as if this were a normal way of life for minors, drinking booze, and having sex with adults all day long.”

Tourism and prostitution go together in the Brazilian Pantanal. Child prostitution, illegal fishing and all sorts of predatory tourism are so common and widespread that it is seems unlikely they are not also connected to police, political and judicial corruption. They are a blatant sign of a lack of governance and accountability. Sex tourism thrives best where there is a failure of governance combined with low-quality economic choices. Ecological and sport tourism can be an extraordinary source of value-added economic activity, if developed with quality and responsibility, both social and environmental. The low-quality, illegal nature of what is sold as tourism in the Brazilian Pantanal tells us, at the same time, a lot about the quality of the tourists it is attracting.


