Análise02 maio

O ciclo de fuga no presidencialismo de coalizão e as decisões críticas da conjuntura

Sérgio Abranches

Ninguém mais tem dúvida de que vivemos um momento decisivo na crise do governo Dilma Rousseff. Esta semana, tudo indica que a Comissão Especial do Senado aprovará relatório favorável à abertura de processo de impeachment contra a presidente. Dilma Rousseff será afastada temporariamente do exercício do cargo. Desde que ficou certo que a Câmara daria a autorização para o processo, o ciclo do presidencialismo de coalizão no qual estava o governo Dilma, desde o início do primeiro mandato, mudou de fase. Defini esse ciclo como ciclo de “fuga”, ou seja, de afastamento dos partidos da coalizão do centro de gravidade política ocupado pela Presidência. Leia Mais »

Análise18 abril

O consenso impossível e o agravamento da crise no presidencialismo de coalizão

Sérgio Abranches

Não há ponto de concordância possível em situações de polarização radicalizada. Na política, este é um fato inarredável. Nem mesmo as ciências sociais são imunes à contaminação das paixões e das convicções pessoais, sobretudo nesses momentos de radical divisão política e ideológica. Digo isto para deixar claro que não considero viável a formação de consenso majoritário sobre a dramática situação política que vivemos, meio à grave crise econômica e social. Não acredito no consenso político, nem no consenso intelectual, pela via da razão. Leia Mais »

Análise, Artigos15 abril

Crise e déficit de liderança: mistura explosiva no presidencialismo de coalizão

Sérgio Abranches

O presidencialismo de coalizão requer habilidade na formação e na gestão das coalizões. Mas o problema enfrentado por nosso modelo político hoje, não se resume à má gestão da coalizão ou à incapacidade gestora da presidente. Há algumas condições funcionais subjacentes à crise política atual, que contextualizam a capacidade de gestão da coalizão. Destaco três dessas condições, entre várias outras: fragilidade da liderança presidencial; ausência de lideranças capazes de articular a coalizão e estabelecer uma relação cooperativa com o centro gestor que persiste sendo a presidência e ausência de lideranças agregadoras na oposição; hiperfragmentação da representação partidária. Nesse contexto, a gestão se torna impossível na prática, independentemente do custo que ela teria. Agregue-se a impopularidade da presidente, a crise econômica, associando inflação alta e desemprego crescente e se tem um quadro de crises gêmeas, econômico-política, que levam ao ciclo de fuga do centro político ocupado pela presidência. Leia Mais »

Artigos05 abril

A política é um jogo de aparências que tem consequências muito concretas

Sérgio Abranches

As aparências não enganam apenas, elas têm consequências concretas. Principalmente quando o jogo de aparências ocorre na política e na economia. Dou um exemplo do mercado financeiro. O noticiário parece — grifem mentalmente o verbo parecer — indicar, num determinado momento, que a maré está mais pró-impeachment. A bolsa sobe, o dólar cai. Em outro momento, a onda aponta na direção oposta, parece que não vai ter impeachment. A bolsa cai e o dólar sobe. Esses movimentos em direções opostas foram provocados por aparências, mas a queda ou subida da bolsa e do dólar produzem ganhos e perdas concretas e repercutem por toda a economia. Leia Mais »

Análise11 março

Clientelismo, petróleo e corrupção no presidencialismo de coalizão

Sérgio Abranches

A relação entre petróleo — principalmente estatal — e corrupção é conhecida. Aconteceu na Itália, nos anos 80, no Irã no período de Reza Pahlavi, na Líbia de Kadafi, no México na época do PRI. O nexo entre clientelismo (a troca de votos e apoio político por favores) e corrupção — para ganho do partido ou pessoal — também. A ocorrência dos três juntos é frequente e tem explicação muito robusta. Há uma vasta literatura na sociologia e na ciência política tratando das interações recorrentes entre petróleo, clientelismo e corrupção na história política de vários países, na Europa, na América Latina, na África e na Ásia. Nos Estados Unidos, as peripécias das indústrias Koch, em financiamentos de campanhas políticas e de difamação de cientistas, na linha difusa da fronteira entre o legal e o ilegal, vão na mesma direção. A indústria do petróleo e, sobretudo, mas não exclusivamente, as estatais de petróleo são um veículo particularmente propício e vulnerável para financiar essa conexão entre clientelismo e corrupção política. Outro elo que, frequentemente, emerge nas investigações sobre corrupção, nesse espaço de interseção com o clientelismo, é o crime organizado, ou a formação de uma organização criminosa para administrar essa relação. Leia Mais »

Análise04 março

Instabilidade política é inevitável e não há mais saída fácil

Sérgio Abranches

Há dois efeitos macropolíticos da operação Aletheia, que teve a empresa do ex-presidente Lula da Silva e o Instituto Lula como foco. Um é o acirramento da polarização e a possibilidade concreta de confrontos de rua. Outro é o agravamento das divisões na coalizão de governo, que já está em escombros. É como um terremoto atingindo uma estrutura já abalada por tremores sérios anteriores. O cenário de recessão continuada e inflação alta e prolongada tem efeitos sociais adversos significativos e impacto direto sobre a popularidade da presidente e aprovação do governo. Essa confluência entre investigações da Lava Jato gerando fatos novos em sucessão e o grave quadro macroeconômico é incompatível com qualquer cenário de normalidade e estabilidade política. A instabilidade levará à ruptura, se todas as opções de saída negociada e intermediada forem interditadas. Leia Mais »